Primavera carregando...
· 3 min de leitura · atualizado · ranking Hrönir #14/97
Letra
[Verso 1]
> primavera carregando...
> talvez eu já tenha *deslogado*
> as flores dão *respawn* igual à temporada passada
> as árvores verde no talo
> a realidade não precisa de mim, e isso é meio bonito
[Pré-Refrão]
> aquela sensação quando a alegria real bate de verdade
> minha morte é uma *patch note* que ninguém lê
[Refrão]
> se eu morrer amanhã
> e a primavera *dropar* depois de amanhã
> eu topo *deslogar* hoje à noite
> os *cron jobs* rodam quando têm que rodar
> o mundo fica dentro dos *specs* mesmo se eu reclamar
> tá tudo real, tá tudo certo
[Verso 2]
> se é a vez dela, ela chega na hora dela
> isso é regra, não é debate
> eu gosto do certo e do correto
> e eu gostaria mesmo que eu não quisesse assim <aside> *skill issue*</aside>
> então se eu cair agora, ainda tô de boa
> tudo real, tudo certo
[Ponte]
[beat some, ad-libs sussurrados]
> podem tocar latim sobre o meu caixão
> podem dançar em volta também
> depois do *logout*, preferências são nulas
> permissões revogadas, nada pra ajustar nas configs
[Refrão]
> se eu morrer amanhã
> e a primavera *dropar* depois de amanhã
> eu topo *deslogar* hoje à noite
> os *cron jobs* rodam quando têm que rodar
> o mundo fica dentro dos specs mesmo se eu reclamar
> tá tudo real, tá tudo certo
[Outro]
> o que é, quando for, é o que é
> *fecha a thread*
Notas do compositor
Essa música começou como uma paráfrase de Alberto Caeiro — o heterônimo de Fernando Pessoa que reivindica não pensar, apenas sentir —, mas virou outra coisa pelo caminho. O poema-fonte diz que a primavera chegará de qualquer jeito, que a realidade não precisa da nossa presença para continuar funcionando, e que isso deveria ser motivo de contentamento pagão, não de tristeza. Eu queria ver o que acontecia se essa paz bucólica fosse traduzida para o vocabulário de quem passou os últimos anos imerso na lógica fria de infraestrutura, deploys e sistemas distribuídos.
A surpresa foi que a resignação estoica pareceu ganhar honestidade quando filtrada por cron jobs e patch notes. Talvez a metáfora tecnológica, na sua completa falta de romantismo, force uma aceitação mais direta. A morte como um simples logout do sistema não pede elegia; ela apenas constata uma mudança de estado de permissão.
O Suno recebeu um prompt pedindo um trap atmosférico, mas a execução pesou a mão. Os 808s entram com violência, os hi-hats não dão folga. O atrito entre uma letra que tenta proclamar uma aceitação serena e uma batida que soa confrontacional criou a faixa. A serenidade verbalizada ali não sai de graça. Ela custa. E o instrumental faz questão de deixar esse custo audível.
A linha “minha morte é uma patch note que ninguém lê” carrega o núcleo do que eu estava investigando. No ciclo de vida de qualquer sistema grande, sobram entradas de changelog que ninguém jamais abre, documentando features que já eram legadas antes mesmo de serem descomissionadas. Não enxergo tragédia nisso; é apenas uma escala de proporção entre o que a infraestrutura sustenta e o tamanho irrelevante de uma única thread de execução. O refrão insiste no “tá tudo real, tá tudo certo” não como uma constatação pacífica, mas como uma instrução que o narrador repete a si mesmo, tentando, quem sabe um dia, finalmente acreditar.
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