666
· 1 min de leitura · atualizado · ranking Hrönir #36/97
Letra
[Verso Único]
A vida é uns deveres que nós trouxemos para fazer em casa.
Quando se vê, já são seis horas: há tempo...
Quando se vê, já é sexta-feira...
Quando se vê, passaram sessenta anos!
Agora, é tarde demais para ser reprovado...
E se me dessem – um dia – uma outra oportunidade,
eu nem olhava o relógio
seguia sempre em frente...
e iria jogando pelo caminho a casca dourada e inútil das horas.
Notas do compositor
Esse texto não é meu — é de Mário Quintana, e é um dos poemas mais devastadores que já li sobre como o tempo funciona. “A vida é uns deveres que nós trouxemos para fazer em casa.” Há anos que carrego essa frase como diagnóstico. Não como metáfora escolar — como fenomenologia precisa: a sensação de que sempre há tempo, de que ainda dá para fazer, e depois você olha e passaram sessenta anos.
Pedi ao Suno que colocasse isso num berimbau de capoeira, com texturas eletrônicas e percussão de relógio. O resultado saiu estranho — de um jeito certo. O berimbau tem uma qualidade temporal muito específica: ele marca e distorce o tempo ao mesmo tempo, cria esse estado de presença alterada que é exatamente o que o poema descreve ao contrário. Você está dentro do jogo da capoeira e de repente percebe que está velho. Ou você está lendo o poema e de repente percebe que é você.
O título “666” não é provocação. É a duração do poema em segundos num formato que me pareceu certo na hora — e depois ficou. As coincidências numéricas às vezes têm mais força do que merecem ter.
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