Xadrez

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3:58

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Letra

[Verse 1]
Em seu canto grave,
os jogadores comandam as peças lentas.
O tabuleiro os retém
até a madrugada,
naquele âmbito severo
onde se odeiam
duas cores.

[Pre-Chorus 1]
Dentro, irradiam rigores mágicos:
torre homérica,
cavalo ligeiro,
rainha armada,
rei derradeiro,
bispo oblíquo
e peões agressores.

[Chorus]
Quando os jogadores partirem,
quando o tempo os houver consumido,
o ritual, certamente, não terá cessado.
No Oriente acendeu-se essa guerra
cujo anfiteatro hoje é toda a Terra.
Como aquele outro, este jogo é infinito.

[Verse 2]
Rei frágil, bispo astuto, rainha feroz,
torre direta e peão ladino,
sobre o branco e o negro do caminho
buscam e travam
sua batalha armada.

[Pre-Chorus 2]
Não sabem que a mão do jogador
governa inteiramente seu destino;
não sabem que um rigor adamantino
sujeita sua vontade
e sua jornada.

[Bridge]
Mas também o jogador é prisioneiro
de outro tabuleiro:
noites negras, dias brancos.

[Chorus 2]
Deus move o jogador,
e este, a peça.
Que Deus por trás de Deus começa
esta trama de pó,
de tempo,
de sonho
e agonia?

[Outro]
Pensamos que comandamos,
mas somos comandados.
Pensamos que sabemos,
mas não sabemos
absolutamente nada.

Notas do compositor

Borges escreveu “Ajedrez” como dois sonetos — o primeiro sobre os jogadores que movem as peças, o segundo sobre as peças que não sabem que são movidas. A conclusão é um regresso ao infinito: “Dios mueve al jugador, y éste, la pieza. / ¿Qué dios detrás de Dios la trama empieza / de polvo y tiempo y sueño y agonía?” A tradução que fiz para esta canção não é exata — é uma adaptação que tenta preservar o movimento da pergunta mais do que a métrica. Borges está citando uma regressão que não tem fundo. Cada explicação exige uma meta-explicação. Cada determinismo exige um determinante.

O que me interessa no xadrez como metáfora — além do que Borges já explorou — é a relação entre regra e liberdade. O tabuleiro tem 64 casas, dois exércitos, movimentos definidos para cada peça. Dentro dessas restrições, o número de partidas possíveis excede o número de átomos no universo observável. Isso é o que o Wolfram chama de computational irreducibility: você não pode prever o resultado sem jogar cada lance. Não há atalho. As regras são simples; o desdobramento é intratável. O xadrez é, nesse sentido, um modelo de tudo que me preocupa em Events All the Way Down.

O gênero que o Suno escolheu para esta letra — trip-hop downtempo, percussão empoeirada, piano desafinado — foi mais adequado do que eu esperava. Há uma pesadez mecânica naquele som, a sensação de engrenagens que não param porque não têm outra opção. “Pensamos que comandamos, / mas somos comandados. / Pensamos que sabemos, / mas não sabemos / absolutamente nada.” A última linha não é desespero — é, estranhamente, um ponto de repouso. Chegar ao limite do que se sabe é a única posição honesta. É dali que qualquer coisa interessante pode começar.

Ainda encontro peças ocasionalmente, perdidas em gavetas ou enterradas em caixas velhas. Cada uma delas é um lembrete daquela guerra silenciosa, da tensão do tabuleiro e da linguagem não dita que compartilhávamos. Talvez o jogo nunca tenha realmente terminado; ele simplesmente se dissipou na arquitetura da minha memória, esperando o momento certo para fazer seu movimento final.

Tags: #música

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