Quando vier a Primavera
· 2 min de leitura · atualizado · ranking Hrönir #22/97
Letra
[Verse 1]
Quando vier a Primavera,
Se eu já estiver morto,
As flores florirão da mesma maneira
E as árvores não serão menos verdes que na Primavera passada.
A realidade não precisa de mim.
[Chorus]
A realidade não precisa de mim.
A realidade não precisa de mim.
[Verse 2]
Sinto uma alegria enorme
Ao pensar que a minha morte não tem importância nenhuma
[Verse 3]
Se soubesse que amanhã morria
E a Primavera era depois de amanhã,
Morreria contente, porque ela era depois de amanhã.
Se esse é o seu tempo, quando havia ela de vir senão no seu tempo?
[Pre-Chorus]
Gosto que tudo seja real e que tudo esteja certo;
E gosto porque assim seria, mesmo que eu não gostasse.
Por isso, se morrer agora, morro contente,
[Chorus]
Porque tudo é real e tudo está certo.
Porque tudo é real e tudo está certo.
[Bridge]
Podem rezar latim sobre o meu caixão, se quiserem.
Se quiserem, podem dançar e cantar à roda dele.
Não tenho preferências para quando já não puder ter preferências.
[Outro]
O que for, quando for, é que será o que é.
Notas do compositor
Este é um poema de Alberto Caeiro, o heterônimo de Fernando Pessoa que criou a filosofia do não-pensar — ver as coisas sem lhes acrescentar significado, existir como a pedra existe, sem o excesso de consciência que contamina a experiência. Eu o musicalizei porque ele toca numa questão que me persegue há anos: a diferença entre aceitar a contingência da própria existência e genuinamente não se importar com ela. Caeiro afirma a segunda coisa; eu não tenho certeza de conseguir mais do que a primeira. Essa distância entre o eu do poema e eu mesmo é o que torna a faixa estranhamente pessoal.
O arranjo em 6/8, com violão de nylon arpejado e percussão suave, foi uma escolha deliberada de não dramatizar. O pastoril como antídoto ao sentimentalismo — a música tenta soar como um campo que não sabe que é belo. O Suno respeitou esse pedido melhor do que eu esperava: a gravidade da letra não afundou o arranjo, que ficou leve como pede o heterônimo mais materialista que Pessoa criou.
A linha que me faz parar toda vez é “Não tenho preferências para quando já não puder ter preferências.” Há uma lógica impecável nisso que beira o cômico de tão rigorosa. E “O que for, quando for, é que será o que é” — isso é, a meu ver, a formulação mais econômica possível de uma certa paz com o processo ontológico. Não resignação, não indiferença: reconhecimento de que o evento se basta. Whitehead diria algo parecido, com mais palavras.
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