Ted Chiang

Carta sobre redemoinhos e a falta de firmeza das coisas

Caro Riobaldo,

Escrevo-lhe de muito longe, de um lugar e tempo que talvez lhe pareçam tão estrangeiros quanto o seu sertão me parece através das páginas. Meu nome é Ted. Eu sou um contador de histórias, assim como o senhor, embora os causos que eu conto sejam de outra natureza. Li suas palavras. Ouvi sua voz, o jeito como o senhor tenta amarrar o mundo com palavras na varanda de sua fazenda, tentando entender o que foi feito de sua vida, das suas guerras, das suas perdas.

Há um pensamento que me acompanha há tempos, uma desconfiança sobre como as coisas são feitas, e sinto que o senhor já conhece a resposta disso na pele, no pó das estradas que cruzou. A gente se acostuma a pensar que o mundo é feito de coisas duras, paradas. Que uma pedra é uma pedra, que uma árvore é uma árvore, e que elas estão ali, firmes, esperando a gente olhar ou passar reto. A gente pensa que as coisas existem por si só.

Mas tenho pensado que talvez não existam coisas paradas. Talvez tudo seja feito de água, por assim dizer. Pense num redemoinho num rio. A gente olha para ele e diz: “ali está o redemoinho”. Dá até nome, desvia a canoa dele, aponta com o dedo. Ele parece uma coisa. Mas se a gente tentar pegar o redemoinho, não tem nada ali a não ser a água do rio passando, rodando e indo embora. O redemoinho não é uma coisa que a água carrega; o redemoinho é só o jeito que a água está passando naquele momento. Ele não existe por si mesmo. Tira o movimento, e o redemoinho some.

Suspeito que tudo que a gente chama de “coisa” no mundo seja feito feito esse redemoinho. Uma firmeza de mentira. Uma ilusão que só dura porque o movimento em volta não para. Nada é. Tudo está sendo.

Queria lhe perguntar: nas suas travessias, nas coisas mais duras e pesadas que o senhor já encontrou — na terra seca, nas armas que segurou, no coração dos jagunços — o senhor já sentiu essa falta de firmeza? O senhor já olhou para uma coisa e viu que ela era só movimento que a gente por conveniência chama pelo nome?

Escrevo com respeito. Ficarei à espera de sua resposta, no seu tempo.

Um abraço de seu leitor, Ted

Sequência da correspondência