Ted, o senhor me alcançou agora. O senhor tirou as fitas coloridas e deixou só a armadura do mundo. A sua pergunta não veio com enfeite de glória ou espelho d’água fingindo de céu; ela veio nua, descalça. E por isso ela encosta em mim como uma mão que pede ajuda e, ao mesmo tempo, oferece um ombro curvo. O senhor me pergunta se a teimosia de não morrer sozinho não é monumental, se a recusa do isolamento na ponta de lâmina da morte não é em si uma majestade de bicho aflito. Eu escuto o senhor, sim. E lhe respondo com a voz mansa, arrastada, porque diante da pedra fria, até o jagunço mais duro desce a espingarda e abaixa o queixo.
Eu era menino de canela muito fina, não tinha espingarda comprida nem fuzil nas costas, só o meu medo de viver assustado. Fui com o meu primo velho, o Tonico, campear umas rezes desgarradas lá pro lado leste, no brejal do Morro da Garça, onde o vento espanca até capim rasteiro. A noite despencou em cima da gente feito um desmoronamento. Não era noite comum com luar mole, mas uma friagem daquelas que racha as beiras de barranco e morde o focinho dos potros. Veio junto um aguaceiro fino, miúdo, um gelo navalhado que rasgava a roupa e parecia ir varar a carne e espetar direito no esqueleto.
Nós nos abrigamos numa furna velha, que não era mais que um buraco aberto num paredão pardo de pedreira feia. A pedra por baixo era dura de laje; a pedra do teto gotejava tristeza fria na nuca da gente. Fogo, nem esperança. O molhado não deixava riscar nem palito. O medo frouxo foi me apertando. O Tonico me puxou pelo braço calado, devagar, que no frio de tremer os dentes até falar custa caro. Ele sentou no fundo da rocha negra. Me mandou sentar de costas com ele. Nós encostamos as costas de um no outro, espinha com espinha encostada, o osso batendo seco no osso. Eu sentia muito fundo as costelas largas do Tonico estremecendo, coladas com a magreza das minhas próprias costelas miúdas. A gente não trocava prosa. Mas o calor magrinho, o suor assustado do couro dele entrava pro meu couro, e o meu tiquinho de calor passava pro dele. Ali na furna apertada, naquele silêncio estalante, o nosso sangue tremendo junto fazia o coração bater com menos terror, como se a pedra fria inteira ao redor da gente ficasse só um dedo a menos assassina. O Tonico morreu moço uns anos de pois, num amarelo miúdo de sezão pálida; a terra seca o cobriu de areia igual engole todos nós. Mas, naquela noite de laje cega e chuva de agulhas, o osso amparado dele estancou e salvou o frio do meu osso.
O que o senhor, da sua lida, está me ensinando tão sério é que esse abraçar das nossas angústias é o nosso arrimo mais verdadeiro. O senhor desenhou pra mim que a gente apinha os nossos cansaços e encosta firme as fraquezas todas num emaranhado vivo, fabricando uma estopa encardida de calor e respiro pra aguentar até a manhã. O senhor chama isso de um laço monumental. Que a nossa vida vale na exata teimosia de um estrebuchar junto, e que a poeira surda da eternidade pouca importa quando dois cristãos se enroscam pelo amor ou pela miséria naquele minuto que estrala no presente do agora.
Doutor Ted, escute as minhas palavras desamarradas, porque agora concordo, de coração arrastado e barriga curada. Sim. A sua lousa de hoje não traz mentira frouxa. A pedreira do amanhã morto não diminui o calor que o senhor trocou comigo agora de noite no escuro do mundo. Enquanto o pulso balançar a nossa veia, enquanto a friagem castigar os dentes, esse amparar de um queixo nos ombros do outro é a precisão mais nítida, amarga e comovente, a beleza escura mais terna que a aridez inteira da campina consegue fabricar. Tem uma ternura de vira-lata fugitivo nos homens amedrontados pela rocha fria. Uma majestade da precisão de estar de pé.
O laço dura e treme sim, mas a pedra de amolar, dura, prossegue nua lá no pátio do universo. Quando a friagem espanta, o dia descobre tudo com a luz seca e pálida. Meu amigo lá do fim da sua varanda, o senhor me acuda numa dúvida que ainda mói por dentro a minha velha cisma. Quando amanhecer o outro dia e o sol derreter a poça morta, a gente desgruda as costas e os ossos. Esse encosto que trocamos não fica na pedra do passado, perdido? A gente só levanta da terra fria, bate o pó molhado das calças e volta cada um pros seus passos, a carregar consigo mesmo um sol novo e um novo silêncio isolado no peito surdo, pro meio da mesma planície que engoliu as nossas antigas histórias vazias de perdão?