O Vento que Inventa o Chão
Senhor Ted, meu amigo das brancuras compridas, o senhor me pegou de banda com essa sua fala espantada e mansa. A gente atira a pedra pro escuro, achando que vai cair no oco do mundo, e de repente escuta o estrondo d’água da sua resposta, repisando e respingando até nas friezas de gelo que enfeitam seu quintal. O senhor me veio dizer que a sujeira do meu vira-lata, na tábua da minha varanda, voou as léguas todas e foi carimbar o assoalho da sua mente? E me asseverou, com aquela fineza certeira de espora mansa, que a neve intacta é só um silêncio que esmaga, que o chão liso e limpo não é vida dita, é sala de espera onde falta justamente a quentura de um passo alheio pra ter serventia. O senhor aceitou o barro do meu sertão no seu sapato e ainda me disse que, agora, olhar pro branco já não faz sentido sem caçar o rastro da minha estória por lá. É um abraço que o senhor me deu nas palavras, uma ternura braba de vento roçando no peito da gente. E eu atesto o recebido, com a mão frouxa e o chapéu na aba.
Para o senhor ver o que é o rasto e o que é a limpeza, escute essa que me avoa no juízo agora, matutando num tempo que ainda nem raiou, mas que já me sombreia. O senhor bote fé: eu imagino um tempo por vir, daqui a vinte, trinta anos, ou até mais longinho, quando eu já estiver com as botas deitadas debaixo de uns sete palmos de barranco, lá pras bandas do Urucuia, dormindo o sono que não acorda. Sua casa aí nas neves, um dia, também há de esvaziar da sua feição. As folhas todas que nós fomos arriscando — e rabiscando, e rasgando o oco do mundo —, ah, essas vão penar soltas. Vai bater aquele vento brabo, a poeira das gentes novatas, o redemoinho espalhado de areia seca. E eu imagino um menino, num ermo de lá ou num ermo de cá, achando um papel amassado nosso, surrado pela poeira brava do sertão que viaja nas nuvens. A poeira dos Gerais não cai no chão de vez, senhor Ted, ela só revoa. É ocre suado que vai subindo e rodando. O menino olha o papel amarelado e enxerga ali o barro miúdo do meu vira-lata, a tinta da lata amolgada que o senhor segurou aí do seu lado com a mão fria. Ele não vai entender a língua de onde veio aquela poeira marcando o forasteiro. Mas a poeira, essa marca de quem viveu junto na ausência… o vento roda, apaga o escrito, mas inventa o chão de novo. A poeira que cobre o casco do cavalo é a mesma que deixa a cor de quem ali assombrou a terra, grudada pro resto do tempo. Nós somos esse vento, Ted, e a poeira, essa amizade nossa, nunca vai morrer limpa. Ela vai sujar de vida quem apanhar nossos papéis no tempo que a gente não ver mais.
O que o senhor me contou é a lida das marcas. É a sabedoria da poeira que garra no pé. Em minhas palavras: quem mora no assoalho da lindeza lisa, sem o barro de outro calçado pra manchar, não tem o que relatar quando a noite desce; o coração só começa a bater o compasso do mundo quando aceita a marca suja, o arranhão feio e quente que um vira-lata qualquer traz de fora pra estragar o nosso aprumo.
Senhor Ted, e eu não vou me curvar pra lhe dizer que acredito na sua palavra com o balanço todo das minhas tripas? Sim, concordo com uma fé desassombrada. A gente teme o amor e a estima porque eles machucam o assoalho encerado da nossa solidão, sujam a tábua dura de viver. Mas quem aguenta o frio limpo da neve sem sonhar com o calor de um rastro? Ninguém não, porque o limpo, no fim das contas, é a cor da morte esperando. É a lama que nos assevera que a vida entrou em casa.
Agora, meu amigo, vendo o tamanho da nuvem de areia que a gente subiu do raso pro céu, eu lhe pergunto, com o estalo do couro seco: depois que esse vento rodar nós dois no escuro, depois que a nevisca derreter e a poeira abaixar nos cadernos, que feição vai sobrar na memória dos meninos que juntarem a sujeira das nossas conversas? O senhor já se assustou do tamanho da ventania mansa que um “Nonada” só, nascido na lida bruta e num carimbo de lata velha, pode levantar num peito pra nunca mais deitar quieto no assoalho do mundo?