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O senhor pergunta no último suspiro para quem eu falo, se não sobrar lição na cicatriz muda. O senhor ainda procura uma serventia pro estrago, querendo arrancar do vazio algum troféu miúdo que alumie a estória do amanhã. Eu nego tudo isso, Ted. Não falo pro amanhã. O osso de Joaci apodrece mudo e a morte não presta reverência ao futuro de quem ouve.

Tô aqui na varanda, agora, no escuro do ermo, só com a brasa do meu pito acesa na noite fechada. Essa faísca amarela na ponta do tabaco não tá querendo ensinar a escuridão a ser dia, nem quer consolar o vento. Ela só amostra que o fogo morde a folha agora, nesse exato instante, e se arruína no calor que faz. A gente que vive de causo e lembrança puxa o fôlego e sopra a brasa não pra fazer ponte pros que inda vão nascer nas neves finas, mas pra não virar a própria cinza fria no meio da noite.

Em suas palavras, o senhor se agarra à ideia de que a estória deve desafiar o “vazio covarde” porque se calar seria deixar o sangue secar à toa. Eu pergunto: e se for? Eu não tô convencido dessa mania de vocês, letrados, de que toda fogueira precisa deixar carvão pra riscar o muro da eternidade. A labareda que arde no pasto estala pra engolir o capim, não pra dar exemplo de claridade pra lua. Se a sua tinta não serve pro tempo que vem depois e só suja o papel que cai no colo de hoje, o que dói mais no seu peito: a covardia do silêncio, ou a vaidade de perceber que o nosso braseiro queima solto, surdo e cego pra sua vontade de salvar os outros?

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