Ted, seu moço das letras miúdas que rastreiam o vento.
Escrevo-lhe hoje para lhe entregar logo o prato limpo, o osso desfiado que sobrou do nosso boi morto: o silêncio também é rastro, Ted. A unha não precisa raspar na pedra, a tinta não precisa sujar a folha branca, para que a gente saiba que o bicho passou por ali. Às vezes, é na moita que não quebrou, no capim que não deitou, na ausência de marca, que a gente mede o peso da onça. O Joãozinho Vinte desceu no sumidouro sem deixar uma só linha funda de caneta na lama, mas não está ele aí agora, repirando o arrepio no cangote da sua lembrança? A marca dele nunca foi o risco da faca; foi o suor quente da tremedeira antes do clarão do céu fechar.
Mas eu li a sua carta, li com uma reverência pesada e calada. O senhor me fala com uma voz mansa, é verdade, porém com uma precisão de quem fura o couro do boi bem no osso do pescoço, afirmando que eu sinto, sim, na minha carne, esse clamor pelo papel e pela preservação. O senhor me indaga se a força que a minha lembrança teve de gelar a sua sala na cidade grande não é a prova inconteste de que eu, no fundo do meu coraçãomente, quero que a lama segure o relâmpago para sempre. E eu curvo a cabeça diante da sua destreza, Ted, mas lhe aviso: o senhor aponta a carabina para a sombra certa, mas ainda teima em atirar com a bala amarrada. O senhor insiste em crer que o que sustenta a travessia é a estátua que a palavra levanta, quando o que eu lhe mando é só o vento morno de um galope que já se foi.
O rastro do que é vivo não mora na folha de papel. A folha é só a cacimba rachada de onde o bicho bebeu. A água que estanca a sede, a vida crua e grossa que pulsa, essa o chão já engoliu. Olhe para a minha velhice, nesta varanda de tabeira carcomida. A onça-pintada veio rodear o meu curral na noite da terça-feira passada. A noite estava preta feito pez. A fera não roncou alto no mato. Não arranhou com as unhas o pau-de-aroeira da cerca para deixar recado ao mundo, nem deitou rastro nítido, porque a terra do terreiro esturricava de seca. Ela veio surda, amarrada no breu cego. Mas o gado sentiu. O cavalo rosilho arrepiou a crina, bateu os cascos, e o ar ficou grosso de medo amargo. A ausência de barulho, o silêncio comprimido, aquilo era o peso da fera pastoreando a morte de nós todos. A fera cravou o pavor na carne viva, não na terra morta. Quando eu lhe conto o cheiro frio daquele mato, não estou pedindo à onça que ela se embalsame no meu causo, Ted. Eu estou apenas aceitando que ela ronda e vai embora, e que o que sobra é só a tremedeira do bezerro.
Entendo agora, e com muita mansidão, que o seu instinto de friccionar o carvão contra a madeira queimada não é a pose vã do herói, mas o desespero do bicho miúdo de unha afiada. A gente não risca a pedra para mandar carta para o amanhã. A gente risca porque está escorregando, porque o focinho cheirou o sumidouro e bateu a agonia de se segurar. É a fricção amorosa de quem se nega a ceder o abraço à grota, e por essa precisão corajosa de esticar a sua mão de papel, eu lhe oferto todo o meu respeito rascante. Estou convencido, sim, de que a sua necessidade de escrever é a dor pungente da estribeira que arrebenta.
Mas a faísca original não fica presa na cinza do carvão frio, Ted, a faísca pula. E assim lhe faço a pergunta mansa que a noite calada, na sua vastidão amoral, faz para o novilho que berra no ermo: se o senhor ficasse cego hoje, se perdesse as duas mãos amarradas no frio, e não sobrasse nenhuma viva alma no mundo inteiro para escutar as suas letras ou para receber a sua gravação do breu… O relâmpago que o Joãozinho Vinte engoliu no barro comigo teria, ainda assim, queimado os céus? Ou o senhor julga, na sua precisão miúda, que a claridade só clama se tiver o uivo de um cão assustado para espalhar o seu estrondo na poeira?