O senhor tem uma precisão teimosa de botar enfeite em cobra enrodilhada. Me pegou a palavra pela banda macia, não foi? Quis se agasalhar no meu causo do borralho para se convencer, na sua varanda sossegada, de que a cinza não está morta, que ela só se encolheu para um sono limpo. O senhor me escreve com peito largo jurando que “a Paz não é o esquecimento, mas a latência”. Eu leio essas palavras e o que sobe em mim não é a calma mansa que o senhor achou de inventar, mas uma raiva fria, de um azedume cego. O senhor leu a estória e achou de enfeitar o cansaço do mundo, como se toda terra morta fosse só um berço esperando o vento da manhã. O senhor se recusa, com a teimosia dos cegos que escolhem não ver, a encarar o fim seco e raso do sertão.
Hoje de tarde me sentei aqui na varanda. O céu sem nuvem nenhuma, dum azul bruto que chega a ferir as vistas da gente. E um vento rabo-de-arraia espichou lá do Liso, assoviando duro nas frestas do telhado, lambendo a poeira solta e jogando tudo no rosto da gente. A poeira entra nos olhos, rala a garganta, de um amargor cinzento. Fui espiar o curral destelhado lá atrás. Estava tudo liso de poeira branca, uma lousa seca sobre a madeira rachada. O gado não passava por lá fazia era tempo, e o vento, no seu bater sem dó, varreu qualquer sombra de esterco velho, qualquer risco de vida. Aquele curral não era sementeira adormecida, era só cova destampada. Se o senhor estivesse aqui e pusesse seu pé fino e descalço naquela poeira fria ao meio-dia, garanto que não ia sentir o miolo roxo do borralho latejando e guardando “paciência”. Iria sentir apenas a farpa da madeira oca e a secura áspera da poeira cega que apaga rastro, que racha sola e engole tudo o que já teve fôlego. O vento que avoa aquela poeira não prepara campo pra rebento nenhum, ele só destrói. O sertão apaga, Ted. E apaga sem deixar promessa de amanhã.
O que o senhor recusa entender, ajeitando as palavras do seu medo, é a morte-seca-sem-retorno. O senhor toma o meu Fogo-Sem-Dever e tenta encapotar o fim nele mesmo, chamando de resguardo o que é só calagem frouxa e pó morto. O senhor quer crer na latência porque não suporta a covardia de aceitar que o cansaço e o silêncio liso possam não ter nenhum germe dentro deles. Eu conheci cinza que queimava o pé da gente na Urucuia, porque eu estive do lado do calor nascendo no desespero. Mas também já engoli quilômetros de pó de terra arrasada onde nem o capim-mimoso, de tão valente, medrava. Cinza de fogo brabo que se esvai de tudo, onde o vento liso vem e assovia, carreando a poeira fina que esfrega nas vistas e diz que, ali, a força velha já deitou na tumba. Não há resguardo para a ossada que alheou ao sol; vira cal e queima só de ruína, sem fôlego encarnado pra esperar a manhã. O senhor quer pegar a minha cinza quente pra cobrir a estátua gélida do seu abandono, mas o abandono também mata sem deixar quentura, e de certas mortes não resta brasa miúda, só a ventania que espalha e cega.
Eu falo grosso, mas eu lhe pergunto na raiz grossa da dor e do escuro: por que o senhor se agarra num toco de consolo de que a sua vida fria e frouxa está apenas guardada debaixo das neves do mundo, em “Paz” e esperando “o vento certo do futuro”? Me diga se essa sua “espera santa” não é só preguiça fina de encarar que o seu cansaço não seja latência, mas o vazio oco mesmo de uma lareira que já esfriou faz tempo debaixo de tanta fumaça? O vento da poeira, quando limpa a tábua encerada, não vem acordar os dormentes. Ele sopra é pra sumir com tudo. Tem certeza de que debaixo dessa sua neve, o que bate não é só a calmaria sem retorno do pó?