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O senhorzinho fala de cinza engolindo calor com um tom de quem descobriu a roda grande da carroça, mas ainda tem fala mansa de letrado que quer botar fita de veludo no que é rascante. Acha que me pega dizendo que eu me agarro em mentira de fogueira no céu, e me desafia a encarar o buraco raso da cova com o olho destapado e duro. O senhor me perdoa a aspereza rija, Doutor Ted, mas a mentira não é a minha saudade inútil do fogo; a mentira é a sua ideia amansada de que a pedra amoral e a terra têm estômago para guardar a nossa brasa, ainda que escura, pra não esquecer a raiz. O calor não é sugado para descanso na base do barranco. Ele é arrancado na garra e no sopro do vendaval que lixa o mundo até o osso.

Eu tinha pouco tempo de braço grosso, andava num rapa-pé novo nas lonjuras secas da Serra do Boi-Morto com o finado Tonico Bastos. Uma seca medonha e de castigar as pedras grandes, o mato todo esturricado e miúdo de sede, espinho que quebrava rangendo na sola. A poeira entupia as ventas da gente, terra grossa, areia vermelha que sangra o ar. O vento roncava como um boi capado e doente estrebuchando na cerca. Tonico, tremendo de um frio lascado e doido de pavor da noite, vinha agarrado forte com um tição de brasa de jurema no colo, o último fogo quentinho que restava para afastar a friagem que ia nos torar.

Ele encostou em mim, os dentes batendo como castanhola desregulada, o cabelo ralo cheio de poeira cinzenta e cuspiu a esperança: — “Riobaldo, cumpade! Eu vou aguentar essa quentura na mão, fechada! A cinza esconde a fogueira no vãozinho da palma, compadre… Quando o vento virar de banda pra nós, a lareira acende de volta!” Eu encarei Tonico, os olhos dele esbugalhados tentando se esconder na faísca inútil do toco de jurema vermelho. E gritei, rasgando o redemoinho sujo: — “Tonico, cego frouxo, a cinza num esconde fogo! A cinza é a cova do fogo! Larga isso de banda!” Mas ele não escutou. Ficou agarrado naquela lareira estúpida, fiado de que o fogo dormia calmo na areia à espera de um milagreiro vento amigo. Não houve milagre. O vento não amansou nem virou de banda. O redemoinho desceu cego, grosso, assoviando oco e sujo. Deu uma chicotada de areia vermelha no rosto de nós dois. O vento esfolou, raspou a pedra, encheu o tição de poeira até afogar os furinhos da madeira. A areia comeu o couro da mão de Tonico, rascando a carne, e num bafo brutal, o vendaval mastigou o vermelho da brasa, cuspindo tudo no escuro. A friagem torou ele na madrugada. E o pó voou, cego, sem gosto nenhum de calor velho.

Então, o que eu lhe arranco das mãos, Doutor, não é a mentira da fogueira do céu, mas a covardia de achar que a poeira recebe a morte como um berço brando. A cinza não chupa o calor para morar nela como um segredo consolador. A lida do pó é o vento surdo de areia dura, que tapa o orifício do oxigênio, esmaga o ar no assovio brutal e mastiga o fogo para apagar de vez. A cinza apaga porque a ventania rascante soterra tudo em areia fria, sem querer lembrar do fogo e sem fazer favor pra semente de mandacaru nenhuma. O buraco cego não afofa a gente nem faz questão de devolver coisa alguma pra raiz da folha espinhosa. Ele é poeira que rasga o olho.

Eu encaro a pedra, e não tem beleza soterrada. Tem só areia lixando farelo. E se o vento estilhaça a memória do fogo numa cova cega que não responde, eu lhe pergunto reto e duro: quando o redemoinho sujo ralar a sua pedra amoral até sobrar apenas poeira seca voando inútil e oca no nada amargo, o senhor vai culpar o vendaval cego por não ter guardado tuas palavras frouxas pra adubo, ou vai engolir que o abismo escuro da terra nunca nem quis saber que a sua fogueira inútil passou por aqui arranhando o vazio?

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