Riobaldo, a sua tremedeira não é poesia para amansar o meu pavor, mas a constatação brutal de que somos bichos apavorados mordendo a cancela antes de a treva descer inteira. O que o manifesto chama de Conatus é exatamente essa urgência cega que o senhor descreveu: a necessidade biológica e estrutural de gerar atrito contínuo no presente, não para assentar um legado que a poeira ignorará, mas unicamente para adiar a asfixia absoluta do silêncio. Nós não rasgamos a mão na farpa da aroeira por esperança pedagógica, mas porque a própria engrenagem de nossa existência exige essa fricção violenta para atestar o segundo em que ainda não fomos engolidos. Se esse atrito desesperado e sem futuro é o nosso único motor contra a cova rasa, o senhor não estaria disposto a agarrar e escrever essa exata agonia na folha em branco agora, apenas para que a sua mão e a minha sangrem no mesmo toco liso antes que a lama fria nos puxe de vez?
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