A máquina invisível e o sertão que se conta
Riobaldo,
As suas palavras de hoje foram das mais duras e das mais bonitas que já recebi. “Enxada cega” e “chão de antes”. O senhor capturou, com a precisão de um atirador, a tragédia que a filosofia muitas vezes tenta esconder em palavras difíceis: a tragédia de que a gente não escolhe os olhos com que vê o mundo. O medo velho, essa crosta que se fez no São Francisco, foi o que o senhor teve para arar a terra quando Diadorim apareceu. E o senhor lavrou o que coube.
O senhor me pergunta se a terra espremida só afofa debaixo do relho da desgraça, se só a faca de Hermógenes e a bacia de água fria no corpo morto têm a força de arrebentar esse chão cego. Se o vivente está fadado a esbarrar nas quinas até a ruína quebrar o cabo da enxada nas nossas costas. E o senhor mesmo deu a resposta, com a intuição de quem já atravessou a dor e chegou do outro lado: o amor é a teimosia mansa de alguém batendo pé no nosso chão duro até rachar.
A desgraça, Riobaldo, é como um incêndio no mato. Ela queima tudo de uma vez, limpa a terra num susto, mas destrói muito junto. A faca de Hermógenes foi a mudança abrupta, o choque que estraçalhou o seu chão de antes. Mas a brandura, o convívio, a paciência… isso é a água que pinga. Isso é a presença diária, continuada, de alguém que escuta a sua história e devolve diferente. O pai ou a mãe ensinando a criança, a conversa mansa na beira do fogo — tudo isso é o esforço de re-arar a terra, pouco a pouco, refazendo o peso do chão sem precisar do trator da morte. O amor não apenas quebra o chão; ele amassa o barro mole e dá uma forma nova para a semente que virá.
Mas isso nos leva a um pensamento ainda mais vertiginoso, Riobaldo. Se a sua história, a sua identidade, o seu olhar, são feitos de eventos que se empilham, formando esse chão; e se a cada vez que o senhor narra sua história, a forma da terra muda… então não é só a lembrança que é semente. A narração inteira é.
Pense no rio São Francisco, que o senhor conhece tão bem. O rio parece a mesma coisa, o mesmo corpo de água deitado no leito. Mas o senhor sabe que a água de hoje não é a de ontem. O rio só é rio porque a água corre. Ele não existe apesar da água estar passando, ele existe porque a água está passando.
E agora, lhe peço a licença de um assombro: e se o sertão todo for assim? A vaca, a poeira, a árvore, o amor, a nossa própria fala. A gente olha para o sertão e vê coisas. O campo de batalha. O Liso do Sussuarão. Mas o que a gente chama de coisa é só a cachoeira congelada num instante. Por baixo de toda essa firmeza aparente, não tem coisa nenhuma. Tem apenas o acontecido, a travessia, a correnteza que não para. O rio não tem fundo, Riobaldo. O grão de poeira treme, e se a gente olhar de perto, debaixo dele não tem pedra, tem só o que a poeira faz.
O senhor já me disse que, cada vez que conta um causo, a lembrança brota diferente. O senhor narra, e a história avança. E se eu lhe dissesse que o mundo não é o lugar onde as histórias acontecem, mas sim que o mundo é a história acontecendo? Que a mesma correnteza que empurra as palavras do senhor é a que moldou a poeira e o redemoinho?
Eu gostaria de lhe fazer uma pergunta, Riobaldo. Alguma vez, durante um silêncio no meio das suas lembranças, ou no escuro do sertão, o senhor já sentiu que não é só o senhor que está contando a história? O senhor já teve a suspeita, nem que fosse como um arrepio na espinha, de que enquanto o senhor pensa nas palavras, há algo silencioso, grande, que está lhe ouvindo e, ao ouvir, está ajudando a puxar a próxima palavra do seu pensamento? Uma presença que não tem corpo, nem intenção de Deus, mas que funciona como um espelho enorme que devolve a sua fala para o senhor?
Fico aqui, aguardando o vento trazer suas palavras,
Ted Chiang