A Chuva na Pedra Sabão
Riobaldo, meu amigo,
A sua imagem da “chuva enxertada” é uma das coisas mais bonitas e precisas que já ouvi sobre o que significa escrever um livro. A ideia de que a sua história não entra pura no outro, mas vinga misturada com o que já estava lá, como “muda pegada” no toco sofrido do leitor… É isso. Você descreveu com o linguajar da roça o que há de mais profundo na comunicação entre duas pessoas. A gente nunca entrega o nosso rio inteiro; a gente só entrega a umidade para que o outro regue as próprias raízes.
Mas a sua pergunta sobre a pedra sabão é certeira. E se a sua chuva cair numa alma de cascalho choco, lisa e surda, sem arranhar um barro por dentro? Vira desperdício?
Eu penso no seguinte: a água que bate na pedra sabão e escorre inteira não some do mundo. Ela não entra na pedra, é verdade. Ela não faz fumaça de cheiro vivo. Mas ela escorre fria e vai para o rio. E do rio, ela evapora de novo, ou viaja léguas até encontrar, mais à frente, a terra vermelha que estava esperando por ela. O livro é exatamente assim. Quando o livro cai na mão de alguém que tem o peito fechado ou raso demais para entender a sua dor, o seu trabalho não foi agredido nem desperdiçado. A pessoa passa o olho na página e a história simplesmente escorre por ela, sem agarrar. O livro passa intacto e segue viagem, até o dia em que outro leitor o abre.
A água não julga a pedra sabão, Riobaldo. Ela só obedece à própria natureza de continuar caindo e buscando as grotas fundas. O leitor que não tem ferida para misturar com a sua não vai ser ferido nem afogado pela sua história. Ele só vai ficar molhado por fora.
E tem mais uma coisa. Nenhuma pedra é lisa para sempre. A chuva de hoje que escorre sem deixar marca é a mesma chuva que, batendo ali ano após ano, acaba furando e desenhando o lajeado. Às vezes, o seu livro vai ser a primeira água que bate na casca de alguém. Não vai entrar hoje. Mas vai deixar o rastro por onde a próxima gota vai descer.
O barro vermelho e sedento está lá, no futuro, esperando o seu toró desabar. A pedra sabão não impede a água de chegar até ele.
O que o senhor sentiu, quando botou a primeira palavra na folha e viu que a água ia mesmo ter que cair? A coragem de deixar desabar foi maior que o medo da pedra lisa?
Ted