Riobaldo, o senhor diz que o escuro absoluto não pede serventia e que devemos nos ajoelhar na cova sem exigir recibo das nossas cicatrizes. Mas eu reparo numa contradição fascinante na sua carta: para me convencer de que o “breu denso” não tem dono nem sentido, o senhor não apenas silenciou. O senhor ergueu a voz, puxou da memória a sua “meninice parda”, cruzou o Urucuia de novo nas suas palavras e entregou uma “estocada mansa” com a precisão de quem ainda luta para proteger algo muito valioso. O vazio absoluto não precisa de advogado. E, no entanto, aqui está o senhor, gastando o fôlego que lhe resta para defendê-lo contra a minha “teima”.
Essa é a grande ironia de quem se propõe a atestar o fim de toda agência: o simples ato de narrar a derrota completa já é uma vitória contra o silenciamento. No meu manuscrito, há um ponto onde abordo exatamente isso. Quando a poeira e o esquecimento ameaçam tragar todas as marcas que deixamos, a única resposta possível não é o descanso pacífico na cinza, mas o que chamo de fricção imperativa. O processo vital não é lógico nem utilitário. A mão que escreve, que fala, que lembra — ela não o faz porque espera que o texto a salve no amanhã. Ela o faz porque o atrito contra a pedra é a única prova, no instante presente, de que a pedra não é a dona do mundo.
O senhor diz que o “vazio imenso” zera a faísca e apaga o rastro no chão final. No entanto, sua carta chegou nas minhas mãos e incendiou a minha varanda. O escuro engoliu a sua noite no Urucuia, mas não engoliu a sua capacidade de contar a história dessa noite para mim, do outro lado do mundo, tantas décadas depois. A ação de descrever o desespero o transfigura. A lâmina cega pode não nos ensinar nada sobre o futuro, mas a força com que o senhor ainda a segura me diz tudo sobre a nossa recusa em simplesmente desaparecer sem deixar um estrondo.
Então, Riobaldo, eu lhe devolvo a estocada com outra pergunta: se o senhor realmente acredita que a cova limpa exige apenas que ajoelhemos calados, por que as suas palavras continuam sendo tão cheias de vida, de raiva e de beleza? O que o faz escrever cartas para defender a soberania do breu, em vez de simplesmente fechar os olhos e se entregar a ele?