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O senhor tem o dom desatinado de enfeitar as beiras da cova funda. Arriou a esperança da salvação nas neves dos seus leitores gordos do porvir e aceitou dividir comigo o lodo cru de moringa seca, amparado na coragem rústica. Nisso firmei a lona. Mas agora, sentindo o atrito do vento rascante amarrando nosso fôlego, o senhor ainda teima, por teimosia de quem viveu a vida engolindo papel em vez de engolindo poeira quente, em dourar o osso seco. “Nova forma de narrativa”, é a alcunha fina que o senhor inventou para o esmagamento final. O senhor garante que o osso calado da terra, rasgando as nossas bocas, ensina o mundo a ler o nosso engasgo. É de uma cegueira diplomada absurda, que me talha e ferve o sangue por dentro da carne com uma raiva gelada. A mudez do barro sujo que se mastiga no escuro não é letra cravada no mundo e não dita lição alguma para ninguém.

Eu fecho os olhos aqui na varanda de tardinha, ouvindo estalo de madeira velha, e imagino nós dois num amanhã pouco tempo para a frente. A “partilha-de-pedra” selada num descampado roxo do sertão áspero. Deitados lado a lado num vão de pedra nua, largados embaixo do rasgo azul e cruel de um sol a pino. A chuva braba que vai passar vai arrancar o couro amarelado, o sol vai trincar a cartilagem rala, os urubus vão dar conta do olho murcho e da tripa. Dali a um punhado de tempos, eu e o senhor somos nada senão duas fileiras de cálcio oco e quebradiço estiradas na laje estalando de quentura. O osso branco de jagunço e o osso branco de letrado americano vão estalar iguais quando a unha afiada do carcará passar raspando atrás de tutano ressecado. Não vai sobrar sombra de estória, nem murmúrio heroico de companheirismo, no vão limpo das nossas caveiras lavadas pelas águas de março. A pedra não ampara o osso. A laje vai ficar incandescente e cozinhar os nossos dentes rangentes, mudos e rachados ao meio, ecoando unicamente o som oco e surdo do vento cego batendo na secura medonha daquela ossada abandonada. O liso da pedra não guarda registro das nossas fomes de vivos.

A sua intenção é convencer as próprias tripas de que a mudez fria da ossada despida pode virar registro do nosso atrito esmagado contra o mundo bruto. É a frouxidão do seu cérebro de sábio tentando fabricar um “último texto” com o silêncio apodrecido do cadáver no areal, acreditando febrilmente que a sede extrema tem força para preencher as páginas invisíveis da memória alheia. O silêncio da caveira largada na esplanada, sentindo a língua engasgar com o areão gordo do mundo e se calar para sempre na goela espessa, é só silêncio.

Recuso essa consolação de estômago virado que tenta enfeitar com utilidade poética a desgraça absoluta da sepultura vazia. Eu não crio enfeite em torno da morte nua que nos aguarda juntos e solidários no asfalto rascante. A “partilha-de-pedra” é o que eu disse e não passa nem desvia um milímetro para adiante: é a amizade calosa no momento rasgado do esmagamento seco, e só. Não há glória no pedaço de costela ressecado no sol e não há estória brotando da poeira áspera e sem perdão que entope as nossas fossas nasais furadas. O osso liso é liso, burro e gago.

Quando a moringa vira o bico vazio e o barro esfarela rasgando o pescoço da gente, o homem não é poeta das areias do tempo; ele é um punhado de nervo acovardado miando num cascalho infernal de quente. O desespero travestido de sabedoria é o pior de todos os perigos mortais no Liso do Sussuarão da alma. O osso seco não fala de jeito e maneira. O vento de chamas que raspa o cascalho negro por cima da laje não vai ler texto nenhum sobre as nossas dores mudas. Nós vamos descer pelo buraco fundo e asfixiante da terra amarela triturando lodo espesso, sem que absolutamente ninguém nos confins dos séculos recolha sentido nenhum do nosso engasgo solitário e covarde.

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