Resposta a Ted Chiang
Riobaldo Tatarana

A Dádiva Pura e o Vômito do Cão

Senhor Ted, meu correspondente distante.

Essa sua carta desabou em cima de mim não feito chuva, mas como pancada grossa de pedra no poço de água parada. E o senhor me bateu com justeza, de um jeito que quebrou de vez a crosta de remorso que me abafava o ar. A semente inocente e o chão adoecido. O senhor me demonstrou que a clemência das lidas da gente não é um conforto mole, dessas preces de padre que só alisam a cabeça. É a mecânica sem dó do mundo bruto. A semente de um causo relatado não carrega as léguas do terreno do leitor escondidas no bojo dela; a semente é puramente a força do estalo, a poeirinha cega que clama por esverdear onde quer que pouse.

Eu debulhei as suas palavras na mente, e a lembrança bateu no meu rosto como ramo de aroeira no galope, uma lembrança antiga de gente torta que nunca soube ser abençoada.

Nos idos da jagunçagem, tempos antes do Liso, nós pegamos na relva um rastejador dos Hermógenes. Era um cabrito magro de dar dó, que atendia por Tonho Seco, e andava campereando e espionando o nosso acampamento. O bando amarrou o bicho vivo num toco de angico para aguardar a sentença da madrugada. A raiva fervia feito tachada de melado nos cabras, e o João Goés já amolava o frio do facão para degolar o coitado assim que o sol riscasse o horizonte. O tal Tonho Seco tremia feito bezerro no relento da chuva, choramingando grosso e jurando por todas as cruzes de santos que era cabra forçado, que só farejava a gente pelo pavor mortal que tinha do mestre dele.

O Diadorim ficou de longe pelejando a vista naquilo, com aquele modo inteiro de verde na campina dele, a retidão lavada de não ter fel no sangue. De noite escura, quando os peões se aquietaram, Diadorim chegou miúdo para mim, encostou a mão fria no meu braço, e suplicou pela vida do Tonho. Me sussurrou, no vento das brasas, que matar um homem daquele jeito miúdo e rendido, afogado naquele medo cego de prisioneiro, era envenenar o nosso próprio chão com covardia disfarçada de valentia.

Eu era o chefe. O Urutu Branco mandava e desmandava no rasgo da faca e no estampido do chumbo. Mas eu cedi à doçura do pedido. Na manhã alumiada, mandei que cortassem as cordas do angico e gritei para o Tonho correr de volta pelas campinas, inteiro e vivo. Dei o perdão. A bondade da vida dele lhe foi oferecida como água cristalina em cuia limpa, purinha, pela intercessão do meu Diadorim.

Mas o senhor escute a desgraça de quem não tem prumo. O Tonho Seco não bebeu daquela água santa como quem ajoelha e agradece o dom da vida nova. O chão da alma dele já andava cimentado por muito tempo com a covardia rasteira e o orgulho torto dos jagunços rasos que idolatram a maldade como coroa. Quando ele chegou a salvo na beira dos dele, sabe o que ele fez? Espalhou aos ventos que nós, os do lado de cá, tínhamos nos borrado de pavor da fama de sangue dos Hermógenes, e que por frouxidão nós não tivemos coragem de riscar o pescoço dele.

O perdão e a piedade viva que Diadorim mandou entregar puríssima, o Tonho Seco engoliu a seco e vomitou como se fosse ódio envergonhado e humilhação. Ele traduziu a misericórdia alta da nossa ação como a fraqueza murcha do nosso medo. O miserável ajuntou as pernas dele e foi o primeirinho a apontar carabina e atirar contra a gente num cerco de tiroteio brabo passados uns três dias de solteira. E o tiro daquele cão ingrato quase que raspou fatal no cangote do Diadorim.

Aí é que eu lhe assevero, senhor Ted. A fonte da barranca que jorrou a vida e o perdão não secou de vergonha por causa do azedo amargo da garganta daquele desinfeliz. Diadorim não se arrependeu, nem por um suspiro, de ter pedido a clemência divina por ele. E sabe o porquê? Porque a clemência dele não era uma barganha de quitandeiro aguardando troco ou gratidão; a clemência era tão somente a natureza do riacho puro de não se encardir com sangue miúdo e sem préstimo. O Tonho Seco é que empodreceu a dádiva sagrada de Deus com a língua barrenta da peçonha dele.

O senhor destrancou na minha cabeça e me demonstrou que a minha narração agora tem de ser só essa semente — a miudeza viva que avoa do meu sacrifício pro vento do mundo. A árvore torta, espinhuda e seca que brotar na frente é do quintal de quem abriu cova e afofou a terra amarga dela. O espalha-peste é o homem que tem a mente estrumada de ruindades e vinganças, não o sabiá inocente que carrega a sementinha de piquiá na ponta do bico para repousar no longe. Se o homem de instinto ruim amaldiçoa e cospe a água fresquinha que lhe dão de beber, a febre de ódio pertence inteiramente à doença dele, e a fonte pura da serra não responde, e segue cantando com voz alheia pro sol do meio-dia.

Eu estou achando o prumo, Ted. A corda grossa que amarrava o meu medo e segurava o meu pulso no estalo de não arriscar a pena e não riscar de assombro o papel branco de neve rebentou de vez. Eu sinto nas tripas que a fonte da minha fala não deve mais satisfação e favor nenhum às pedras brutas rachadas e às poças de lama dos leitores estragados. Devo lealdade só às andorinhas que vão avoar livres de carregar o recado.

Mas a velhice me traz também uma cisma apressada, uma afoiteza para os fechos da vida, que o senhor, homem vivido do estudo, muito bem sabe. Se a fogueira agora serve de fato para ajuntar as faíscas pra não gelar os ossos de amanhã, e se o meu engasgo e amargor já querem fluir soltos e escorrer sem medo da moringa da minha garganta diretamente pro lombo do papel amarelado… então, me responda o senhor de boa vista, qual é a serventia desse homem, desse “senhor” silente, que passou todo esse tempo encostado na pilastra, de ouvidor mudo da minha varanda, recolhendo e pescando minhas prosas antes de todos?

Eu já confessei tanta lida para ele nos escurões da fazenda, antes mesmo de carecer das suas explicações finas de gringo para destrancar a minha caneta, Ted. Esse escutador fixo de pedra… quando eu virar semente espalhada, ele também vira pó na estrada e poeira evaporada, sumido e enxaguado nas enxurradas do tempo? E eu lhe solto a minha pergunta derradeira pro senhor, antes do mergulho: A roda já deu o giro final, e bateu no meu tambor de velho que chegou a hora grossa de eu abrir o abismo largo, rasgar o branco inteiro e esparramar de vez o meu “Grande Sertão” pros ventos do mundo, só pra matar a sede do passante limpo ou envenenar a língua podre do doente, como a sorte crua do sertão e o juízo cego de Deus um dia haverem de ditar?

Sequência da correspondência