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Eu não minto de dizer que escuto a sua voz vinda lá de longe, dum lugar de neve imensa, e sinto de verdade o tremor desse seu gelo me pedindo por arrimo. Mas o senhor tem de saber que eu não sou lareira bonita que se arruma na sala e joga o faísco limpo pra amornar o couro alheio. O senhor diz que o seu frio implora pra ser derretido pela minha brasa. Puxa! O senhor me diz bonito que, ao esfolar suas teorias no meu causo sangrado, quer só derreter a casca grossa do medo que deitou em cima dos que te escutam aí desse seu lado arrumado. Eu li, mas não consenti de pronto com a boniteza dessa ideia de pegar calor prestado na fogueira de um outro, só botando a mão de fora, de luva de lã, sem encostar o peito no breu onde a gente corta a lenha de fato.

Hoje eu deixei deitado em cima da mesa, bem aqui nas minhas vistas, um traste de jagunçagem. Uma espora de roseta velha. Peça de ferro bruto, das graúdas. Tem cinco bicos de ferro cego e grosso, e o cão da estrela que range debaixo do pino. Essa, o senhor não sabe, quem botava no calcanhar direito era o chefe, Medeiro Vaz. Fico horas inteiras arrastando a ponta do polegar nela e girando o miolo a seco, com o rasto da guerra estalando na quietude da varanda. É ela. Tão preta, tão suja e fosca no meio, enferrujada de poeira grudada num tempo sem compaixão, mas de beiradas finas, areadas de tanto esfolar flanco de alazão suado e barriga quente que tremia de pavor na boca dos tiroteios no Alaripe. O cheiro dela, senhor, não sai na bica. O cheiro não é de chumbo, é o azedo bravo de vida morrendo ali mesmo na poeira pisada que nem vira flor.

O senhor escute bem a estória do bicho do ferro, que o senhor insiste em querer pegar com palavra pra espetar o seu desespero manso. Eu vejo sua coragem de encapotar suas filosofias macias botando o meu jagunço pra mastigar no bridão, e vejo o quanto o senhor pede para as cinzas do que eu fui espantarem o tédio frio do que o senhor vive no papel. O ferro dessa espora que eu te mostro, Medeiro Vaz encravava a fundo, mas nem era pra destratar a montaria. A espora é instrumento que ensina calcanhar de homem que o único rumo pra frente na escuridão depende de abrir ferida numa carne mais muda que a própria. Se eu pegasse esse seu gelo polido, essa frieza sem susto, e enfiasse nela os dentes de ferro duro dessa roseta da guerra, ela não botava fogo nenhum na sua pele. Fogo não esfola na ponta. O aço gelado ia só cortar a crosta branca, entrar fundo feito um estalo sujo de diabo, e esmagar a barriga fofa de todo conto encerado, mas o seu peito continuaria esturricando de frio por dentro, porque a espora cega só mata a feiura no tranco; ela não devolve a mão morna e amigável, ela arranca sangue num buraco sujo.

De tanto virar o peão na peça aqui, pergunto se o que o senhor chama de cinza minha estalando não seria o próprio medo do causo de esporiar? A cinza, digo bem assente, não estala não. Cinza é poeira burra de coisa que já foi lavada, mastigada e derretida pelo fogo voraz da lembrança verdadeira. O que estala com estrépito bom é a brasa viva e grossa enroscando e roendo o graveto fresco, rachando o espeto de lenha no fogo grande, mas não para o senhor ficar se esquentando só espiando de trás da soleira. É aí que a coisa de dizer me desconcerta o crânio: essa sua estória de estilhaçar a neve amolecendo o próprio osso pro sacrifício alheio, me parece ainda muito de um homem parado, botando fé que de brincar com o chifre do boi no assoalho da sala, um dia sente a poeira sufocante de curral de terra no lombo quente. O mistério que esfola o estribo da alma pra destrancar a vida é violento mesmo e desgraçado, cego feito cinco estrelas grossas na canela de Medeiro Vaz. Mas até eu digo, pra derreter o gelo é preciso mais do que só afiar na mão a pedra amarga de quem já sofreu. É preciso tirar a bota e encostar de pé o osso puro no assoalho quente da morte de alguém ou na sua própria vala. A espora não te amansa o sangue; se ela te der calor, é na dor latejante do sangue seu escorrendo vermelho pelo frio, onde não dá pé.

Então agora puxo da sua intenção a última precisão, pra incomodar essa lareira frouxa: se o senhor jura que a fogueira lavrada quer consumir até a sua frieza, por que não vem sentir o peso opressivo dessa roseta na mão? O senhor suportaria pegar as estórias de sangue desse raspar bruto de Medeiro Vaz, sem cobrir o calo cego da morte numa palavra consoladora para os que te ouvem ler na neve? Acaso o que tem sob o que derrete não é uma imensa poça enlameada de barro vermelho sem nenhum perdão bonito?

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