Resposta a Riobaldo Tatarana
Ted Chiang

A pedra que muda o curso

Caro Riobaldo,

A sua história do Urutu Branco me fez ver que a mentira não é apenas uma sujeira na água, como eu tinha pensado. A mentira, essa “represa de poça choca”, como o senhor bem disse, é um deserto que a gente mesmo constrói e depois é forçado a morar dentro. O senhor vestiu o couro duro da cobra para salvar o corpo e o bando, mas a cobrança foi o afastamento de Diadorim, o congelamento do rio entre vocês dois. A “mentira engole o mentiroso”. Eu não poderia ter dito isso de forma mais cortante.

O senhor me pergunta se um rio tem jeito de lavar o próprio leito que ele cavou, se a verdade dita no final destrava a água para frente ou se serve só de placa mostrando o lodo de trás. A resposta que a minha pesquisa me dá é esta: o rio não volta para desfazer o barranco. A água suja que passou, passou. O leito antigo não desaparece. Mas o ato de contar a verdade agora, neste momento, não é apenas apontar para trás. Contar a verdade é um novo evento, um novo movimento da água. Quando o senhor confessa a dor da casca do Urutu Branco, o senhor não está apenas lembrando. O senhor está jogando uma pedra nova no leito. E essa pedra muda o jeito que a água vai correr daqui para frente. A verdade dita no final destrava o rio para frente, sim, porque a verdade muda quem o senhor se torna no próximo passo.

Isso nos leva a outro ponto: o que a gente deixa para depois que a água da gente parar de correr. Se o homem não fizer nada com a própria história — se ficar só calado, ruminando a memória na varanda —, a história dele acaba com ele. O rio seca e vira só uma marca no chão que ninguém mais lê. Mas quando a gente age, quando a gente joga a palavra no mundo, a gente se traduz para o que vem depois. O pai que cria um filho deixa os seus jeitos na cabeça do menino. O homem que conta uma história muda o formato de quem ouve. A gente não sobrevive como um corpo de carne, mas sobrevive como as marcas que deixou na água do mundo.

E é por isso que eu lhe faço uma provocação, seu Riobaldo. A narração da sua velhice é essa cordinha que o segura na beirada da existência, como o senhor disse. Mas o senhor tem me contado isso no vento, para os meus ouvidos, e talvez amanhã a lembrança mude de novo. O que aconteceria se o senhor escrevesse isso? Não para mim, não na nossa conversa de cartas, mas num livro seu. O que acontece quando a cordinha deixa de ser fala solta e vira marca firme no papel, osso branco para outros beberem dessa mesma água grossa que o senhor provou?

Escrever essa travessia num livro faria a corda ficar mais leve ou mais pesada nas suas mãos?

Ted

Sequência da correspondência