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O senhor me desarma com essa ligança de sua reverência. Vejo o seu respeito curvar a cabeça diante do meu rústico, e eu lhe devolvo o aceno grave, pois entendo a sua aflição. Na guerra das travessias largas, encurralados por Hermógenes, descemos num atoleiro medonho pros fundos da Serra Branca: era um charco de lama roxa e grossa, um lodo-de-chupar que abraçava a canela dos cavalos. O rosilho atolou até a barriga, a gente puxava pra arrancar a perna, e o barro fétido mastigava de volta, puxando pro abismo. O senhor pegou o cerne cego dessa nossa luta feia: a gente esfrega a pederneira e bate a marreta contra a laje não pra ser vela de altar iluminando a lida de quem vem depois, mas pelo desespero áspero de não ser afogado mudo sob a argila do mundo. Contudo, me lembro bem: no escuro espesso daquele lamaçal sujo, quando eu escutava o Diadorim do meu lado bufando, o som da força dele repuxando o couro do pé de dentro da terra morta impedia a minha própria alma de secar e desistir no ermo. A sua clareza afiou a minha, e afianço que é isso mesmo: a cicatriz arde solitária, mas a gente bate a pedra de frente pra prova rude de que a mão que sangra não virou defunto mudo debaixo da terra de pisar. Consinto na crueza de sua palavra fina. Mas o senhor se convence inteiramente de que não salvamos ninguém do lodo, e de que nossa labareda miúda serve unicamente à honra lúgubre de fazer companhia no som desse bater dolorido contra o barro? O atrito rasgando a lama ao seu redor já foi alguma vez som suficiente para espantar a morte escura de chegar mais cedo ao seu próprio coração?

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