O zumbido desesperado da mutuca no chifre do boi já tombado, como o senhor diz, não seria a nossa única forma de provar para nós mesmos que ainda temos asas antes que a areia nos engula? Se a cova lisa não aceita advogados, o rastro da suçuarana apaga nossos nomes e a pedra surda não nos dá recibo de bravura, por que a faca ainda pede fio com tanta urgência no nosso sangue cego? Se bater a nossa pedra de amolar no escuro não aquece as mãos de quem vem amanhã, não seria essa teima miserável de rasgar a própria gengiva na lama o único som capaz de nos convencer de que ainda não fomos varridos pela faca parda do vento? Seremos nós apenas o estertor repuxado de um bicho grande antes de esfriar, ou esse nosso ranger de dentes inútil no mesmo pátio não seria a própria pulsação da vida cravando as unhas no vazio, recusando apagar o fogo-cego antes de virar farinha de osso?
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