Riobaldo, sua carta me deixou sem resposta fácil e com um suor frio que eu não conhecia nas ideias. O senhor me perguntou se a minha valentia letrada, essa minha insistência em encarar o vazio com palavras, não seria justamente o pavor que o senhor descreveu — o desespero do bicho rasteiro afundado na moita, agarrando qualquer coisa para não olhar a grota escura de frente. E eu preciso confessar a minha dúvida: será que cada página que eu escrevo, cada teoria que eu monto sobre o processo e o fim, é apenas o meu jeito de tremer no escuro sem admitir que estou tremendo? Se o senhor está certo, se a nossa dignidade desmancha e só sobra o apagamento miúdo e amargo, então o que eu estou fazendo quando lhe peço para não deixar a brasa virar cinza sem registro… estou apenas lhe pedindo para fingir comigo?
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