Senhor Ted, reverenciado companheiro de palavras fundas.
O senhor pinta uma grandeza tão bonita no escuro, arranja enfeite pra engrandecer a lama, que quase puxou a minha cabeça pra assentir cego. O senhor quer estampar uma coroa no instinto de sobrevivência e chamar de “espasmo violento e recusa irredutível” o que é somente pavor frouxo de virar defunto calado. O senhor acha que rasgar a poça no lodo atesta uma glória, um heroísmo miúdo que recusa curvar a espinha pra água pesada do infinito? Senhor, eu lhe peço reverência, mas discordo na raiz inteirinha de tudo que o senhor mandou me dizer. Não há atestado de dignidade nenhum. O baque surdo do estrebuchar é somente a doença da carne acossada.
Lhe entrego uma visagem certa de um futuro que ainda há de cair no nosso lombo. Imagine o senhor um mundo onde os rios tudo secaram, um amanhã ressecado que mastigou nossa semente e sobrou só cinza, lajedo e poeira branca no estio sem fim. Não tem mais água de represa estourada, o sol triturou tudo. Tem só pedra lascada e o osso branco trincando com o bafejo ardido do ermo. Imagine dois bois, perdidos de sede e couro rasgado. Um bicho, sentindo a língua empedrar e a vista turvar, se joga na vala e aceita o fim. Vira na poeira macia, esconde o focinho perto da sombra rala de um toco murcho e morre silencioso, sem gasto, rendido mansamente. O outro boi, na cova de areia ao lado, muge esganiçado. Muge com pavor animal do breu que se aproxima. Urra estrebuchando a pata rasgando unha na pedra calcária que esquenta a brasa viva. Morre enroscando chifre na pedra pra não descer calado. No outro dia, o sol nasce e esturra igual a carcaça calada e a carcaça berradora. O vento morno sopra e desfaz a marca de casco da briga e da submissão no mesmo sopro indiferente. Dali mil anos de sol e poeira rasteira, os ossos dos dois viram farinha fina. Um montinho de osso moído num canto, o outro montinho no outro canto. O lajedo de pedra surda que mastigou o gado inteiro não avisa ao universo de quem brigou até o grito e de quem entregou as pontas calado.
A pedra que chata o mundo e esmaga o afogado no fundo do poço, senhor Ted, é completamente cega pra essa contabilidade de beleza ou lamento! O senhor diz que a teimosia em debater forja a nossa prova final. Digo e refaço do meu jeito: essa tal recusa irredutível não deixa prova nem gravura em pedra, ela é apenas o medo rasgado em desespero cego de se apagar sem platéia. E o abismo não separa nem premia; a boca banguela do sertão mastiga o bicho medroso estrebuchando da mesmíssima forma e com o mesmo barulho de quem desceu passivo e silenciado pra cova. O eco oco desmancha o berro não no ar do porvir heroico, mas engolido pela pedra preta.
O senhor crê nisso que disse? Porque no osso da minha vivência velha de curral e rasgo seco no breu, a beleza de recusa que o senhor se conforta com ela é frouxa perante o abismo de areia. Essa vaidade de estrebuchar é a carne enganando o próprio medo enlouquecido.
Por isso, lhe faço a cobrança final para tirar a prova do prato raso. Se no amanhã calcinado onde o vento soprar o pó, nem um só leitor surgir no breu pra ouvir esse heroísmo do seu atestado, o senhor pode jurar pra mim que esse enfeite altivo da sua luta inútil não passa apenas do mesmo choro medroso da criança que esperneia antes da onça mastigar seus ossos sem nenhum atestado celestial?