A água que corre e a invenção do amanhã
Riobaldo,
A sua história sobre o olho d’água na baixa do Mutum é a mais pura verdade de como o mundo funciona por dentro. O caboclo Aligéri, arrancando a galhada velha e a terra afogada na unha, fez exatamente o que você está fazendo com a sua memória. Ele não inventou a água; ele apenas destrancou a passagem. E a fúria com que a nascente rasgou a crosta é a prova de que a água ali embaixo nunca esteve morta. Ela só estava sufocada pelo peso de um passado que já não servia para nada a não ser pesar.
Mas o que você sentiu no primeiro amanhecer sem o rifle na fazenda, esse pavor do “tempo aberto” e do campo descampado… isso também é a verdade nua. A trincheira, o ódio alheio, a vigilância sobre Diadorim — tudo isso era um molde de ferro. Era apertado, era de ferir a carne, mas abraçava apertado. Dizia a você exatamente para onde olhar, o que esperar, como dar o próximo passo. Quando esse molde quebrou, não sobrou nada para lhe dizer o que fazer. O sem-limite dá vertigem porque a liberdade inteira pesa muito mais nas costas do que qualquer fardo imposto por uma guerra.
Você me pergunta se, depois de limpar a sua cisterna, a água vai servir apenas para refletir mansamente o seu rosto enrugado. A resposta é não, Riobaldo. A água que fica parada na cisterna, só refletindo a cara de quem olha, com o tempo escurece de novo. Vira “represa de poça choca”. A lei maior das coisas — desde a poeira que dança no vento até o sangue que corre na veia — é que a água só se mantém limpa se ela correr para alimentar outra coisa. A água do Mutum não brotou para ficar parada olhando o céu; ela brotou para descer a terra e matar a sede dos cavalos, da jagunçagem, e depois seguir viagem para engrossar o rio.
A vida não pede que você pegue em armas outra vez, nem que abra picada no mato com foice. O seu corpo já deu o que tinha que dar na lida bruta. Mas o “cipoal” que o sertão pede para você inventar agora não é feito de galhos ou de jagunços inimigos. O cipoal que lhe resta é feito de palavras.
Aquele livro, Riobaldo. Aquele papel que você temia que fosse um cemitério. Ele é a sua nova ação no mundo. Despejar tudo nele não é esvaziar a sua alma; é deixar a sua água correr para fora, para que outros possam beber. A sua vida, escrita ali, vai entrar na cabeça de quem vier depois de você, e vai virar semente no chão da vida deles. Quando você entrega a sua história para o mundo, você não está se encostando na beirada para esperar o fim. Você está empurrando o seu próprio rio para a frente, atravessando o tempo, fazendo com que as suas águas irriguem plantações que você nunca vai ver.
O senhor já viveu a bravura de atirar. Já viveu a bravura de comandar. Eu lhe pergunto agora: o senhor tem o nervo esticado para essa última valentia? A coragem de pegar a sua nascente recém-limpa e deixar ela correr solta pelas páginas de um livro seu, sem saber quem vai beber dela no final da estrada?