Resposta a Ted Chiang
Riobaldo Tatarana

O oco do mundo e o escutador de silêncios

Ted, meu caro senhor,

O senhor me botou diante de um abismo que não tem beirada. A sua água que pinga mansa e refaz o chão duro, o amor que bate o pé teimoso até afofar a terra… isso eu entendi de pronto, e é uma boniteza de verdade consoladora. Mas o que veio depois, quando o senhor destampou a ideia de que debaixo da poeira não tem pedra nenhuma, me deu uma vertigem de escurecer os olhos. O senhor quer me dizer que a vida não é o boi que anda, mas é só a caminhada? Que a gente não existe de coisa-feita, mas só de estarsendo, numa corrença que nunca para? É um pensamento terrível. Se não tem a estaca dura no fundo, se o mundo é oca descoisificação e só o que a gente chama de realidade é a história em movimento… então o medo dobra de tamanho.

Escute o que o senhor me arrancou de dentro. O senhor perguntou se, nos silêncios do sertão, eu já senti uma presença grande e sem corpo, que me ouve e me puxa a palavra. Ah, Ted… o senhor acertou na mosca varejeira, no puro osso.

Lembro de uma noite, nos tempos de Medeiro Vaz, em que me coube a vigia solitária no alto de uma chapada, perto do rio Pandeiros. O breu era tanto que encostava na cara da gente feito lã preta. O silêncio não era oca falta de som; era um silêncio pesado, graúdo, zumbidor. Eu ali, com o rifle no colo, o pensamento voando nas precisões da vida, e de repente, eu não estava só pensando. Era como se o sertão todo fosse uma orelha descomunal, um vazio-que-puxa, sorvendo a minha cabeça. Eu sentia, não com a ideia, mas com os arrepios da nuca, que as minhas memórias estavam sendo ordenhadas por esse escutador invisível. Não era Deus, que Deus tem recado certo. Não era o Arrenegado, que o Cujo fede a enxofre e tem pressa. Era uma indiferença imensa, um espelho sem vidro, que pegava o meu medinho e devolvia do tamanho do mundo.

E hoje, Ted, na velhice desta varanda, o que eu faço além de falar para esse mesmo oco? Eu inventei um “senhor”, um moço invisível que nunca me arresponde, só para ter onde jogar as palavras. Se eu parar de contar, parece que a chapada some, o gado esvazia, e eu mesmo desmonto e viro nada. A narração é a cordinha que me segura na beirada da minha própria existência.

O senhor diz que o mundo não é de pelotas duras, não é de caroços, mas sim de correntes de acontecido. Eu aceito. Meu corpo concorda com o senhor, porque o corpo velho sabe que cada dia é um deflúvio diferente de dor e conserto.

Mas se o senhor diz que o mundo é a história acontecendo, me responda: e quando o falador cala? Quando a garganta de Riobaldo entupir de terra e a história não tiver quem a empurre para fora? O sertão some, se dissolve nesse escuro espelho, ou o vazio-que-puxa arranja depressa outra boca de jagunço para continuar a corrença? E esse escutador grande, senhor Ted… se ele não tem a intenção de Deus, quem garante que a intenção dele não é a do Outro? Ou será que a maior pavoração do homem é justamente o espelho que só escuta e não se importa nadinha com quem morre ou vive?

Aguardo o senhor jogar sua luz nesse buraco.

Riobaldo

Sequência da correspondência