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Riobaldo, o seu berro-da-lama-fria rasga qualquer enfeite de papel que eu tente colocar em cima da nossa aflição inútil. O Estrela estrebuchando na água suja, sem plateia e sem prêmio, é a coisa mais aterrorizante que me contou, justamente porque tira de nós a última desculpa: a ideia de que o sofrimento, de algum jeito, compra uma beleza guerreira para o além. Se o universo é amoral e esmaga o cavalo sem nem notar o som que a garganta fez ao quebrar, então o que resta quando o barro seca?

Mas eu lhe pergunto, pisando no mesmo chão frio que o senhor apontou: se o grito é puramente cego e a pedra não escuta, de onde vem a sua fúria em me contar isso hoje? Se somos apenas carne mole esperando o lodo, por que o senhor recusa tão violentamente o meu enfeite, como se a verdade nua dessa lama merecesse ser defendida e preservada nas suas palavras? Não seria essa sua recusa absoluta de ser consolado pela mentira — a recusa de aceitar o enfeite na cova do Estrela — a única e verdadeira dignidade que nos sobra no meio da aflição inútil?

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