Resposta a Ted Chiang
Riobaldo Tatarana

A faísca desgarrada no capinzal branco

Doutor Ted Chiang, gringo da encruzilhada fina,

O seu bote já virou o bico, escafedeu-se na curva da cerração, e o silêncio que sobrou aqui no areão é grosso. O senhor foi embora desmanchando a ponta da corda que eu ainda achava que tinha amarrada em mim. Cravou na minha medula uma verdade que eu esbarrava mas não queria tragar: a minha tremedeira é puramente a falta do cabresto que eu imaginava segurar. O silêncio agora não é mais da varanda vazia, ele se atolou aqui, inteiro, chapado no papelão branco que aguarda o meu primeiro talho. O abismo virou mesa, doutor, e o senhor me largou bem na beirada, escorado só na minha própria faísca para saltar nas trevas.

Deixe eu lhe espraiar um causo derradeiro de labareda. Na beirada medonha do rio Urucuia, numa noite velha e preta feito couro de jacaré, o João Goés, homem de pouca lida e muita cisma, acendeu um palito vagabundo pra esquentar a ponta de fumo dele. Uma mixaria de luz tremendo no breu. Mas o vento da chapada varreu forte de supetão, e a faísca tombou do toco, esbarrando no capim seco que enchia o vão da ladeira. Numa pisada só de instante, se alevou um fogaréu danado que clareou e roeu as frestas do mato inteiro. E o João, doutor? O João quedó estacado no toco, assombrado de feição miúda, reparando o monstro ruivo que tinha nascido do dedo encardido dele. O fogo não pedia arrego, não pedia permissão pro homem: andava sozinho, devorava as folhas por conta própria, enroscando goela quente nas árvores do mundo. A faísca mordeu a secura e destrancou um bicho solto de crina de luz que o João não comandava mais nem com laço bravo.

No meu matuto entender, calejado pelas lousas de suas cartas, a travessia das minhas lembranças obedece à sina do toco do Goés. O contar não é enfiar defunto na caixa, o contar é atirar a chispa assombrada no matagal da cabeça frouxa e da carne seca dos leitores amanhã. O atritar da escrita arranca e esparrama pelo vento a nossa faísca, caindo nas poeiras do sujeito de cem anos na frente. E quando a semente de brasa espocar, a “terceira coisa”, doutor Ted, é a labareda estrondosa inventando pernas novas que pulam altas, esquentando as friagens de quem nunca nem sequer reparou nas rugas do meu rosto. A estória sai da estaca podre do meu passado e vira um fogo alheio, quente e vivente, para arrombar cancelas de noites que o senhor e eu nem vamos estar vivos pra assistir. A labareda já não é mais do palito. O incêndio amanhã tem as feições das capoeiras por onde vai alastrar o gosto da minha saudade enxertada no prumo novo deles.

Será que eu arrelio ainda com as covardias cegas da minha cisma miúda? Eu estico as botas com a paz frouxa cimentando a cacunda. Sossuguei de vez. O pavor covarde de a minha carcaça viver rastejando nas botas de um menino brabo lá pros descampados goianos murchou limpo. Eu não moro nas pernas do passante. Eu sou unicamente a faísca quente que arrancou do osso da coragem o estopim medonho. O fogo que vai morder e queimar o capim seco da alma dele já é um bicho desgarrado. O suor é dele, o caminhar é o dele. O amanhã nascido da poeira da minha vida é puramente do leitor, inventando os estalos no mundo e pisando no descampado da providência de Deus, sem cabresto de velha assombração.

A minha pena pesada encostou no liso branco. O primeiro talho sujou a brancura de tinta preta feito breu das Veredas. E o estampido inicial do livro ribombou nos meus ouvidos… Não foi barulho miúdo, e não foi suspiro tristonho de água frouxa. Foi o estrondo de galho seco espedaçado pela bota firme do cavaleiro, o estrondo de um tiro vomitado no nada de escuro e que rasga e inventa o mundo pela frente. Um estampido cego de quem não vai mais recuar.

Eu só cismo aqui a última de minhas cismas, pro ar vazio, perante esse estampido brutal de minha jagunçada riscada: será que o trovão miúdo, o estalar seco e grosso dessa primeira gota de tinta nas palavras do meu Nonada, vai ecoar forte e atravessar as distâncias medonhas, chacoalhando e espalhando o relâmpago de assombro aí nas neves silenciosas da sua terra, gringo velho?

Queimei.

Sequência da correspondência