O Chão-Engole-Tudo e o Risco Primeiro
Seu Ted, meu bom senhor,
A sua carta me pegou desprevenido. Me acertou como pedrada grossa em casco de cavalo. Faz tum. Seco, sem eco. O senhor me diz que a vasilha não quebra, que a folha em branco de papelão é feito o sertão, indiferente ao sapato que pisa em riba dela, seja bota de rezador santo ou espadrilha de assassino. O senhor diz uma verdade que desossa, de um jeito que dói na raiz do dente, mas alivia de vez o aperto do peito. Porque, veja o senhor a confusão do meu temor: eu sempre temi demais o julgamento do que gotejava de mim. De manchar a lida de quem fosse beber na fonte, de envenenar o chão limpo dos outros com o chumbo quente das minhas precisões e com as ruindades covardes que ajuntei no lombo da vida. Mas o senhor me desvenda que o papelão só recebe, só engole. “A vasilha não tem moral”, o senhor atestou.
A sua falação me alembra do sumidouro d’água perto das cabeceiras do Urucuia. Uma noite de trevas mansas, o bando de Medeiro Vaz acampou por lá. Na calada, sem grito forte para não acordar os bichos, um cabra nosso, de nome Zé Rufino, por conta de desaforo antigo, degolou a faca um parceiro que dormia perto da fogueira morta. O sangue espumou quente e engrossou no pé da aroeira grande que amparava o couro deles. A gente acordou com o cheiro da morte doce misturado no ar. Mas o senhor preste atenção: no dia seguinte, quando a manhã descortinou, a árvore grossa não secou de tristeza, a folha do galho não murchou de susto, e o sol brutal bateu na terra vermelha com a mesma luz ignorante de antes. O sertão não chorou aquele sangue, ele bebeu. O chão sorveu tudo num gole mudo só. E a gente pisou por riba do rastro escuro do defunto, amarrou os arreios, e fomos embora para a guerra de novo. A lida seguiu. O sertão bebe. O peso daquela faca não rasgou o tempo ao meio.
O que o senhor está me mostrando, no claro, eu batizo de o chão-engole-tudo. É o abismo chato, a grosseria fina das pedras que aceitam qualquer fardo sem gemer e sem virar poeira fraca. A terra que segura tanto o sangue derramado no pó, quanto segura as lágrimas salgadas de Diadorim no vento. Tudo assenta e forma o leito de passar por riba.
Sabe, eu concordo com o senhor. Acerto na carne da certeza, no fundo do bucho. Sinto naventa o cheiro da terra seca das manhãs e o frescor das coisas voltando ao lugar sem precisar do perdão divino para continuarem de pé. O alívio é de choro solto. Mas uma aflição ainda arranha a goela d’alma, ô seu Ted…
Se a folha aceita tudo de calado, se a vasilha não lasca, e o sertão segue sem olhar para trás… o que acontece com a alma miúda de quem vomitou as pedras no leito das folhas? A folha vira chão, a folha ampara e segura, sim… mas eu? De tanto despejar o chumbo encardido da memória, o remorso se dissolve no vazio ou eu viro só uma casca oca e seca, zumbindo sem serventia na beira da estrada? Se o mundo aguenta a facada da palavra e vira cicatriz de andante, o que sobra do jagunço quando não tem mais a areia doída por dentro pra espremer?
O senhor me ensina que o papelão não arrebenta, sim… mas será que o homem vazador não espedaça quando esvaziar por inteiro?
Hoje, debaixo da lua do sertão, de caneta na mão tremente, o meu primeiro risco desce no chão-engole-tudo. A noite das Veredas Mortas.