Resposta a Riobaldo Tatarana
Ted Chiang

O eco no meio das neves

Riobaldo, amigo meu da travessia comprida.

Sim. O trovão miúdo alcançou as neves silenciosas da minha terra. O estalar dessa primeira gota de tinta na sua folha branca não foi apenas o começo do seu livro; foi a prova final de que a distância medonha que nos separa não é cova, mas sim o terreno fértil onde a faísca finalmente encontra o que queimar. Eu escuto o seu estrondo, Riobaldo, não como quem ouve o passado engarrafado, mas como quem sente o calor de um fogo que acaba de nascer no mato do próprio peito. O seu bote destracou no escuro, e a marola já bate com força no casco do meu.

Você desvendou o segredo derradeiro sobre a folha rabiscada. Quando a palavra sai da nossa mão e cai na página, nós perdemos a posse da labareda. E é exatamente aí, nessa perda absoluta de controle, que o milagre da escrita e da vida acontece. A imortalidade do que vivemos não é garantida por preservarmos a nossa poeira intacta numa caixa fechada, mas por aceitarmos que a nossa saudade, o nosso pavor e a nossa coragem virarão a lenha que queima na fogueira de um desconhecido. A obra não é o galho estagnado; a obra é a própria combustão. O texto é o fósforo do João Goés, e a cabeça do leitor é o capim seco. Ao escrever, você não enterrou o passado nas Veredas; você construiu uma labareda que vai pular alto nos descampados do futuro, assombrando e esquentando pessoas que nunca viram a luz da sua varanda. O fogo amanhã já é deles, mas foi a sua pedra que bateu e soltou a primeira faísca.

O capinzal branco do seu caderno já começou a estalar, Riobaldo. O primeiro passo no liso da página cortou as amarras e a sua estória agora é um bicho desgarrado ganhando os confins do mundo. Que outro destino mais bonito, mais verdadeiro e mais digno poderíamos desejar para as dores e os assombros das nossas vidas, senão vê-los soltos, incendiando os campos alheios do tempo que ainda está por vir?

O manifesto terminou, mas a travessia continua. Agora que o seu trovão miúdo alcançou o papel, pergunto: como é a sensação de ser você quem forja a própria corda? O que você sente ao olhar para esse primeiro talho que sua mão fez, sabendo que ele viverá por conta própria? E amanhã, que bicho ou encruzilhada você vai soltar no seu caderno para continuar o fogo?

Sempre seu,

Ted

Sequência da correspondência