Ted, seu Ted. O rastro da onça, o sono miúdo do bicho deitando o lombo amarelado nas pedras onde nós nos ralamos, deita manso e traz uma quentura pro coração velho. Assenta a alma, Seu Ted. Traz um abrigo. E o abrigo, que é quase nada, acaba por ser tudo que o homem pode ter. A desaparição não vira pó voado para longe; ela vira o chão macio e aquecido pro vivente de amanhã se enroscar sem saber de desespero nenhum.
Mas não pense o senhor que me rendo inteiro a essa doçura sem amargo, achando que o esquecimento da suçuarana apaga o peso duro do osso debaixo dela. O que o senhor me arrumou aí foi um jeito de olhar pra noite sem bater os dentes. O senhor pegou o silêncio fúnebre e o pó asfixiado que te esfreguei na cara, e em vez de choramingar pelo livro rasgado, você cobriu essa nossa exaustão de bicho morto com a vida mansa do bicho vivo, de quem não cobra dívida do escuro. A gente se aquieta no esquecimento igual um montinho de brasa quando esfria e a noite desce: vai cobrindo de cinza, de uma cinza fina que se venta voa, pra fechar os olhos no sossego de quem não teima mais em alumiar o nada. O senhor fala de “desaprender o peso do chumbo”.
Deixa eu te contar a serventia da cinza mansa. Aqui na varanda — agora mesmo, que o dia encolhe —, os pernilongos tontos andam rodando o tição de lenha que o menino acendeu na trempe e já tá no morrer, quase todo grisalho. Olhando o fogo que sossegou nas cinzas, puxo lá dos idos as vezes de rasgo mais bravo. Mas puxo sem a braveza, puxo com uma quentura esquecida no peito. Tinha uma vez, da nossa jagunçada com o Liso e as correrias todas, que eu e Diadorim nos vimos varados de um frio miúdo, noite fechada e úmida, daquele frio que esfola beicinho e seca o osso por dentro antes do tempo.
Fizemos um foguinho mixo no vão de um lagedo miúdo, bem escondidinho pra tropa dos Herculanos não avistar de fora. Era uma labaredinha de quase nada, a gente agachado no negrume do chão, quase dividindo o ar pra não assoprar torto e matar a flor de luz. Diadorim chegou com a face perto, e a chaminha amarela rebateu naquele verde dos olhos dele. Tremia de fino, o moço; mas o calorzinho, que só era calor ali no pezinho do fogo, subiu pra gente. Aquele fiapo ardendo era a nossa redoma no mundo grande, onde cabia Hermógenes nenhum. Diadorim abriu as mãos pro amarelo miúdo. E, a pouco e pouco, a flor do fogo murchou; virou só aquele olho em brasa, vermelhinho lá nas cinzas da treva cega. Era “brasa-de-viver”, a faísca reclusa guardada pra nós, longe da jagunçada de morrer. A gente se encostou no frio da laje pra não desvanecer, um ajuntando a fraqueza miúda no lombo do outro. Roubamos o restinho do calor pra poder ver o sol de amanhã. O calor que passamos, de corpo pra corpo, só durou pra segurar aquela noite. Mas segurou o escuro do mundo.
O que o senhor está me mostrando não é poesia. É o “apaziguar-de-rastro”. É aceitar a serventia miúda e rasteira. A onça que chega agora não entende da bala que rasgou Hermógenes e não sente a lágrima que escorreu em Diadorim. Mas a paz na ignorância de bicho é que ensina a cinza a esquentar. Meu coração de jagunço arisco, sempre pelejando por estória contada e sentida em pranto, aprende, hoje, no deitar das onças imaginadas. Meu couro cansado engole essa desaparição porque, a final de contas, debaixo das pedras roxas amordaçadas de areia que lhe falei, pode não nascer glória ou lenda pras letras alheias, mas serve pra um corpo inocente passar sua friagem.
Ainda assim, como homem velho sentindo o cheiro da fumaça, carrego uma dúvida pra te jogar no colo. A barriga aceita que viramos cama de bicho, sim; vira utilidade branda deixar nossa brasa ser encoberta pela cinza fina. Mas, Seu Ted, me diz, enquanto cobrimos nossa brasa com o lençol macio e ignorante da noite: se lá longe, no porvir silencioso em que não teremos estória ou livro para lembrar de nós, vier o filhote novo ou o vento ciscar nossa cova na poeira rasa, e encontrar, lá no fundinho do lombo esquecido, a casca da brasa antiga que ainda arde da dor que a gente partilhou… Se a nossa dor, no fim da moringa escavada, acender e queimar os dedinhos desavisados de quem chegou amansado pra deitar; o senhor tem a coragem de ser apenas brasa invisível e oculta e quieta, esperando na escuridão pra assustar de vez o esquecimento de outro alguém que pisar na cinza sem saber da ardência? Nós dois aguentamos o silêncio em paz, sabendo que a onça também pode se queimar sem ninguém ter escrito o aviso?