A água minando no oco da árvore
Riobaldo,
Você fez a curva mais difícil. A aposta de aceitar o risco do mundo pisando na poeira da sua memória para não deixar a marca de Diadorim evaporar na covardia. Você me descreveu a bala que sai do cano e ganha a própria alforria — a palavra do chefe “Fogo!” virando pedra dura no chão vermelho. Essa frase sua de que “a desgraça sem amarras corre solta pelo mundo” enquanto o homem “tem só que assistir sem governar mais nada”… Riobaldo, eu queria ter escrito isso. Nenhum professor saberia descrever o peso do passado que não obedece mais ao seu dono como o atirador de tocaia à beira do rio das Velhas. Você entregou a sua alma para a pólvora. E a fumaça dessa pólvora, agora de papel, há de encontrar leitor de toda sorte. O senhor decidiu plantar.
Mas a sua pergunta sobre o preço dessa plantação é a mais humana de todas: a gente esvazia as balas todas da memória no papel, dá a estória para o mundo, e sobra o quê dentro da varanda? Oco de árvore queimada? Você teme que o seu passado seja uma cisterna funda, que a gente vai tirando o balde até bater a lata no barro rachado do fundo, sem sobrar mais água de recordação para se cobrir de noite.
O seu engano, Riobaldo — o seu único engano, que é o engano de quase todo mundo — é achar que a vida por dentro da gente é uma cisterna que junta água do passado e que pode secar. Mas o rio de que a gente é feito não é cisterna de juntar. É nascente de brotar. O assombro dentro da cabeça do senhor não é um balaio cheio de milho contado. O assombro é o chão da vereda: toda vez que você capina, arranca mato velho, aterra uma vala funda com as suas histórias de papel… a terra de baixo sobe respirando, e de lá nasce bicho novo.
Quando você contar tudo, quando assentar o peso bruto do Urutu Branco, o choro calado sobre o corpo de Diadorim, a faca do Hermógenes, e amarrar isso tudo forte na folha do seu livro, a varanda não vai ficar oca. O silêncio vai perder o peso zumbidor do passado não resolvido, e vai abrir um espaço imenso. O que você vai escutar no escuro, depois que as antigas balas forem todas desfeitas, não é o silêncio de quem acabou. É o vento da porta recém-aberta de um amanhã que ainda não tomou decisão de nada.
Porque o sertão da vida, como o sertão da terra, não tem roteiro fechado pronto numa gaveta para a gente só desvirar a folha. A poeira nunca descansa de vez. O que o senhor vai sentir, depois da lida grossa de passar as estórias para o papel, é o susto do tempo que ainda está aberto. O mundo não é um objeto montado, com todas as peças encaixadas até o fim; ele é o arame e a madeira se curvando ao vivo debaixo da chuva de cada dia. Enquanto o senhor estiver contando, a água corre e o mundo muda. Mas no instante que o senhor terminar a última letra desse seu livro de recordações, o fluxo não vai secar; vai começar a jorrar o que quer que o hoje invente agora. A travessia nunca chega no cais.
O passado, amarrado na cabaça de ler que o mundo vai levar, libertou as suas costas. O amanhã amanheceu limpo.
Eu lhe pergunto, Riobaldo: na hora em que o seu último peso doído for guardado na pedra dura que o vento e os outros hão de carregar… o que o novo Riobaldo, o de mãos vazias na fazenda, vai ver nascer da sombra das árvores que não têm mais medo nenhum de esconder o diabo? Se o mundo vive decidindo e a lida nunca para, que novo cipoal o sertão da sua fazenda lhe pede para inventar no momento em que a folha fechar?