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O senhor atirou certo no escuro e acertou o miolo quente do meu brio de velho. Eu vinha brandindo a enxada contra o vento, negando a utilidade do nosso choro perante o lodo cego, mas agora dobro o espinhaço frente à sua palavra. O senhor me mostrou que o fedor animal da nossa agonia é o que sobra como foice para arranhar a pedra dura do porvir amoral, forçando as enxurradas que descerão das alturas a obedecer à cicatriz suja do nosso desespero rasgado. Eu, que vivi pela braveza solta, estaco em absoluto silêncio. Reverencio essa sua verdade, que crava o osso na poeira de modo que não há força nenhuma que o possa ignorar quando a tempestade chegar no amanhã.

Ainda ontem, na boca da noite fria aqui na varanda de casa, meus olhos vazaram para longe e fechei a atenção inteira ao redor de uma única e resequida caveira de boi curraleiro. Uma só carcaça bruta fincada na beira esturricada de onde, em tempos passados, ficava a grota do Veredão Estreito. A lembrança subiu de chofre, de quando eu era menino solto, descalço e apavorado, esbarrando no mesmo lajeado com Diadorim do meu lado, nós dois estacados diante do que o sol já tinha mastigado.

— Diadorim, — eu perguntei naquela hora, apontando o caco feio do osso branqueado pela calcificação da seca — o senhor acha que o arroio se vinga dessa pedra cega quando o céu desabar em chuvarada?

Diadorim olhou de soslaio para a imundície de cal no barro duro. Apertou os lábios secos, com os olhos espiando os rastros esgarçados em volta, a poeira fina esfacelada da pata rasgando o lodo num estertor de agonia, que ainda teimava marcada, fundamente arranhada na greta que a estrebuchada desesperada do couro moribundo tinha cavado antes do bicho render o couro e a carne ao sol abrasador.

— A água que vem de enxurrada na encosta do morro — Diadorim me falou assim, baixinho e cravado — não tem vingança, mas também não tem comando próprio na planura estripada. A água só escuta as gretas amargas e é forçada a obedecer ao buraco torto que as unhas desse coitado arranharam com dor cega no barranco duro.

— Então o rio amanhã vai desviar a fúria e o curso por causa do pranto esturricado desse fedor estragado de boi no rastro estirado de agora?

— Sim, carece de desviar a correnteza e afagar o couro estragado do rastro afundado, Riobaldo. Nem que o aguaceiro não queira, ele só pode descer onde a desgraça fincou seu chifre, sangrando o molde cego do mundo vindouro.

O senhor diz o que Diadorim sempre soube, escondido no mistério dele, que eu não destrinchei direito até o senhor me desvendar à bruta a obediência forçada da água cega ao estertor do animal no lodo rasgado. O bicho caiu estraçalhado de calor de sol a pino, a sua dor inútil cortou o chão ressequido pelo bater descontrolado dos cascos de agonia; e é este rasgão ensanguentado e a cova inerte da sua carcaça dura que ditarão, sem apelo, por onde a enchente dos anos molhados do amanhã é encurralada a passar. A cicatriz fincada da agonia brutal do hoje impõe à indiferença do universo vindouro qual rumo as suas águas terão de trilhar pelo leito arranhado do desespero nosso. O mundo sem memória, cego e amoral, obedece escravo ao molde físico do nosso osso estilhaçado.

Meu corpo velho entende, e os joelhos do jagunço calejado se dobram. Curvo-me calado, concordando de vez, pelo peso inteiro e sujo dessa descoberta de reverência amarga.

Contudo, senhor Ted, um espinho escuro sobrou ferreteando-me as ventas, sem largar do osso da testa, frente a essa grandiosa obediência: se a água do amanhã precisa engolir o arroio escavado pelo grito quebrado e estraçalhado do boi no lodo mudo… e se a calha por onde descerá a vida fresca das eras do porvir é feita da agonia medonha e manchada do pranto fétido dos que morreram primeiro, então essa mesma água do tempo que virá e beberá quem nos seguir não terá o sabor encardido de nossa tragédia velha e assombrosa? Não viverão eles engolindo sem saber o nosso mesmo fel sujo, afundados pela mesma marca da desgraça eterna?

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