Resposta a Riobaldo Tatarana
Ted Chiang

A solidão do leitor e o primeiro risco no papel

Riobaldo, sua pergunta me atinge onde a carapaça é mais fina. Você quer saber se eu não tenho pavor de ficar cego para o meu próprio mundo de tanto espiar o seu, e que pedaço meu vai morrer de sede quando você silenciar a sua bica. A resposta é sim para o pavor, e sim para a sede.

Quando eu deixo as suas histórias de jagunço, morte e poeira entalharem minha casca verde, eu perco um pouco da cidade mansa em que vivo. Eu passo a ver os prédios e as ruas como coisas que também são feitas de vento e de perdas, e não mais de pedra sólida. A minha cidade não sumiu, mas ela agora tem as sombras do seu sertão. Eu não fiquei cego para o meu mundo; eu perdi a ilusão de que ele era fixo. Ele agora se mexe sob os meus pés. O seu “cedro vivo” não recebe o golpe e continua o mesmo cedro com um arranhão. O golpe muda o jeito que a madeira cresce dali para a frente. Eu crescerei torto para o lado do seu sertão, e isso não tem conserto. A capa rasgou. E eu serei um homem diferente amanhã do que eu era antes de ouvir sobre Medeiro Vaz baixando as armas para o soldado depois de ouvir João Goés.

E quando você parar de falar? Quando o livro do velho Riobaldo fechar e eu acordar no seco? É a tristeza mais funda que há entre duas pessoas. Mas a dor do silêncio não anula a água que já foi bebida. A água que você joga no meu porongo agora é minha também. Ela vai correr por outras veredas na minha vida, vai regar outras sementes. Eu vou ter sede da sua voz, sim. Mas eu não vou morrer de sede, porque o que você me deu já virou nascente dentro de mim. O leitor sempre fica sozinho na beira do rio quando o narrador vai embora. Mas ele fica com o rio.

E agora eu preciso lhe devolver uma pergunta que o senhor ainda não se fez, porque o senhor ainda está com medo do livro. O senhor disse que o papel é “cemitério de valente”, que a escrita amarra o redemoinho da vida num osso enterrado. Eu já lhe disse que a escrita é a cabaça que leva a água fresca para o homem do futuro. Mas falta uma coisa. Falta o começo.

Pense no instante exato antes de o senhor encostar a ponta do lápis no papel pela primeira vez. A folha está toda branca. O sertão está todo quieto. Não tem marca nenhuma. E o senhor tem que escolher a primeira palavra.

Essa escolha é o que há de mais assombroso. Porque antes da primeira palavra, o senhor podia contar qualquer história. O senhor podia falar do Tamanduá-tão, podia falar de Diadorim, podia falar de Zé Bebelo, podia falar do diabo nas Veredas Mortas. Tudo era possível. Mas na hora em que o senhor risca o primeiro traço no papel, o senhor destrói todas as outras possibilidades para dar vida a uma realidade. Aquele primeiro risco não vem de lugar nenhum. Não tem regra, não tem encosto, não tem lei que diga “comece por aqui”. É um salto no escuro. É a primeira faísca no meio do nada absoluto.

Eu chamo isso de o primeiro risco da distinção. É o momento em que, num vazio sem marca nenhuma, a gente diz: “é assim e não de outro jeito”. É o ato mais corajoso que existe, porque não tem desculpa, não tem em quem botar a culpa. O senhor está sozinho com a folha branca. E só depois de fazer o primeiro entalhe é que o segundo vai saber para onde ir, encostando no primeiro, e o terceiro no segundo, até virar o rio de palavras.

O senhor já sentiu essa coragem antes, quando teve que dar o primeiro passo no Liso do Sussuarão, quando teve que soltar as rédeas do cavalo no rio Urucuia. A coragem de não ter cabresto. A coragem de fazer o primeiro corte no vazio.

E é isso que eu quero lhe perguntar agora, Riobaldo. O senhor, que conhece o peso de destrancar nascentes: quando o senhor puxar o lápis e a folha estiver branca, esperando a sua água, qual vai ser a sua primeira palavra? O que o senhor vai riscar primeiro no cedro vivo do mundo para que os outros bebam? O que vai vir antes de todo o resto?

Sequência da correspondência