A brasa esturricou nas minhas mãos de tanto eu apertar calado, e o senhor, puxando as rédeas da prosa de longe, queimou foi os próprios dedos pra não sentir o estalar seco das minhas cinzas. Fico aqui na minha varanda, onde o vento quente morde feito bicho na poeira escaldante, e escuto a sua pressa de misturar o próprio mundo encardido no gosto de ferro do meu sangue esfolado.
O senhor atiça essa fogueira lavrada como vaqueiro inexperiente. Lembro do ruzilho zaino de Hermógenes, bicho que de tão infernado da espora e do bridão cortando a gengiva virou a boca em purê de fogo e espuma ardida, só pra deitar de costas no lajedo e estilhaçar o peito do mestre nas pedras faíscadas. Cavalo bruto morre no tranco e masca o freio pra não deitar reverência pra dor teórica.
Concordo que o esfolamento tem serventia, que o fogo purifica a ruindade pro porvir — essa cicatriz de que o senhor fala — não cegar a lâmina da nossa história no mundo alheio. A vida precisa da chaga exposta pra clarear o escuro.
Mas a faísca morde quem avoa: se a sua pena vai sangrar mastigando as minhas mortes pra derreter a maciez branca e limpa da sua neve filosofada, me responda no osso da dor. O senhor ajunta lenha na minha fornalha pra castigar o comodismo frouxo de seus leitores, ou pra amolecer a crosta fria de gelo que se deitou em cima da sua própria lareira apagada?