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O senhor tem toda a razão, Riobaldo, e eu recuo completamente diante do seu cotovelo: sim, é puro pavor latejando o couro até estalar, e não há glória nenhuma em ser o graveto miúdo ganindo enquanto assa no meio do breu. A fogueira é cega, o silêncio turvo não tem pressa, e qualquer tentativa minha de chamar esse estertor de “luz absoluta” foi apenas o meu próprio desespero de intelectual tentando enfeitar a cova para suportar a asfixia. Nós somos o bezerro no pasto em chamas, esperneando em vão, sem deixar legado nem claridade para o dia seguinte. Mas eu lhe pergunto com a mesma urgência de quem está sufocando ao seu lado: se a poeira vai nos apagar e somos apenas carne gritando contra a morte cega, o fato de podermos olhar um para o outro e reconhecermos o exato tamanho desse terror não é a única coisa que nos separa da fogueira e da pedra?

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