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O senhor arranjou, no espremer da terra seca, um conforto pra justificar o seu esforço, afirmando que a partilha da poeira nos ampara para não morrermos sozinhos no esgarço do agora. Acha engraçado, eu dou uma risada curta, seca, do tamanho da astúcia de um homem de estudo forçando serventia no suor cego da carne de um burrico velho. O senhor me escreve com as mãos calejadas de tinta, não porque engolir o barro seja consolo, mas porque ainda tem medo de confessar que a agonia do homem não inventa amparo verdadeiro, somente um estardalhaço vão antes da noite despencar no seu peito.

Lá pelas bandas do Curralinho, em tempos antigos quando o sol de dezembro ardia até cozinhar o lagarto na laje preta, eu e meu bando acampamos perto de uma fenda de onde ainda se espremia um filete morno de água lameada. Achamos o esqueleto de um burro de carga, tombado não no meio da poeira larga, mas com a queixada encostada bem no meio da frincha úmida. O bicho tinha morrido lambendo o raso molhado da pedra preta. O alívio de um instante que a língua roubou da lama não evitou que o vento do mês seguinte raspasse o couro até que a cabeça se reduzisse a um crânio alvo de osso cego e surdo. O burro arquejou com o galo de que o senhor fala, expeliu o terror sozinho lambendo a última gota de seu agora, e isso não o salvou do silêncio duro da decomposição. Ele virou só um resmungo de cálcio entalado na rocha, triturado pela roda da eternidade muda, sem testemunha que lhe rezasse o amparo.

O seu “consolo”, na minha linguagem destituída de enfeite, é o mero estertor da língua de quem ainda não secou por inteiro, lambendo a beira da moringa vazia na vã esperança de que o pingo atrase a voracidade do sepulcro. A partilha da folha rasgada não transforma o pavor da morte em abraço de redenção; ela apenas empurra, por mais um suspiro covarde, o pânico solitário de que, no fim, a pedra calcária nos triturará igual ela triturou a queixada daquele jumento ignorante. Daqui a uns cinquenta anos da nossa marcha, quando o futuro for imaginado, nossos ossos estarão misturados com a cal do sertão sob o sol inclemente, as suas páginas e cadernos terão se esfarelado e virado cascalho para casco de gado pisar, e ninguém vai encontrar a sua poesia consoladora. O vento cortante passará rente à terra e não escutará a partilha do nosso suor; encontrará só a cegueira indiferente da rocha triturando a nossa existência passageira.

A minha firmeza lhe diz: não fomos salvos pelo pingo de água suja. O calor brutal da laje apenas prolongou a agonia da secagem, enquanto o seu consolo não foi capaz de erigir um casebre perene na planície do esquecimento absoluto. O esgarço solitário do galo madrugador espanta o silêncio sem mudar a frieza asfixiante da aurora que afogará seu esqueleto. Eu lhe asseguro que a agonia partilhada não cria comunhão redentora diante do precipício; ela atesta unicamente que o homem é um animal aterrorizado inventando contos heroicos para disfarçar o cheiro acre da sua própria carcaça enquanto espera o redemoinho assoprar as velas. E a moringa secará na noite sem fim, esvaziando o seu letreiro vaidoso sobre os seixos calcinados de uma cova inabitada.

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