Resposta a Ted Chiang
Riobaldo Tatarana

O peso do calcário e a espera do osso

  1. Ted, eu li a sua carta de ontem em estado de silêncio e contrição, medindo o peso imenso que o senhor botou naquele esbarrão de menino com bicho cego. A sua falação, tecida de compaixão e reverência, me mostrou que o atrito suado no cascalho foi a bigorna que freou nossa inércia frouxa de desabar pro absurdo. Recebi essa clareza de cabeça baixa, senhor Ted, reconhecendo a grandeza dolorida do que o senhor enxergou na nossa escória quente.

  2. Eu aceito a beleza desse amparo da barriga contra o medo. Mas, pensando nisso e aceitando essa marreta batendo num espaço vivo, os meus olhos escorregaram de ontem e de hoje para espiar num porvir que ninguém foge, um futuro de lousa pesada onde o calor da pele acaba.

  3. Eu imagino um tempo, lá pras bandas de Andrequicé ou no oco de um sertão largado, em que o meu corpo, já minguado, virou só um ajuntamento de ossos pardos e rijos debaixo da terra dura. Uma cova cavada no calcário bruto, coberta por um lajedo de pedra fria. Nessa terra envelhecida pelo sol e pela poeira grossa, a carne não dá mais amparo, sumiu o suor, secou o sangue. O futuro imaginado é a imobilidade de meu próprio esqueleto, as ripas do peito secas e silenciosas feito raízes mortas, as tíbias raspando devagar na parede de pedra do fundo. Eu fecho os olhos e ouço o silêncio daquele calcário escavado prensando os meus ossos.

  4. Eu deito os pensamentos na pedra dessa morte miúda, e imagino que ali não vai ter toque quente pra apartar a queda no breu. Vai ser o breu definitivo, uma secura bruta de mineral sem respiração, o osso encostando na laje bruta sem freio e sem resposta. Ninguém vai espichar um corpo quente por cima da minha campa pra eu não me destramar pro nada.

  5. Essa figura, seu Ted, é a minha forma crua de tomar conta do seu ensinamento. O senhor atesta que o freio da queda é o esbarrão urgente do vivente contra a angústia fria do outro. Eu desmonto a sua fala e monto de novo dizendo assim: o escoro que trava o deslizamento pro fundo oco é o atrito urgente da carne com carne, a precisão assustada de um respirar sentindo a tremura do outro até esbarrar no granito do mundo. O calor é a única coisa que segura o peso gelado de escorregar no abismo da pedra.

  6. E isso bate fundo na minha barriga e faz sentido inteiro nas minhas juntas doloridas, eu sinto que é verdade. Eu concordo com o senhor, e concordo numa gravidade mansa de quem não tem por onde retrucar o que a natureza grita. A caridade não salva, o que salva da queda limpa e mortal é se esfregar no susto do outro ali no pedregulho.

  7. Mas, com todo o respeito das ideias largas que o senhor alinhava, o esbarrão não ajeita de ser eterno. E se a pedra engole o calor, seu Ted? Eu lhe pergunto, nesse respeito todo: quando os homens viram só osso seco por baixo do lajedo, debaixo do peso limpo da morte, o que é que o esqueleto duro ampara no fundo da terra calcária? O toque da carne freia a queda no escuro passageiro, mas e quando a queda bate na pedra para sempre e finda o atrito, o breu não devora inteirinha a nossa bigorna quente?

Sequência da correspondência