O senhor é teimoso demais, moço, mais teimoso que cão perdigueiro em buraco de tatu. A gente tira a sua lousa de cima do ombro, a gente derruba as parede do seu manifesto ventado, mas o senhor acha logo um jeito de recolher os cacos, juntar os graveto, e botar livro de novo onde é só silêncio sujo. Quer me dizer que, mesmo morrendo de medo, agarrado nas farpa da aroeira com um palmo de lama debaixo dos peito, o vivo de nóis dois ainda vira “pena”? Que a minha mão rasgada e pingando suor de agonia no toco liso não serve só pra não morrer, mas pra assentar o “livro que a poeira não vai ler”? Quer dizer que eu e meu estertor só tem precisão de ser a continuação da poça que engoliu o comparsa? Eia… Deixe de coisa. O senhor bota um fardo grandão na covardia de quem sobrevive. É bonito o que o senhor fala, é. É redondo, ressoa que nem sino bom. Mas tem oca no meio.
Vou lhe contar do fim primeiro, pra não haver esperança de letra no que vou narrar. O resultado de quem garra a lama pra tentar não escorregar no poço é que a mão não escreve a história do finado, meu amigo. A lama só esfria o osso do vivo que ficou. Fim.
Aconteceu assim. E foi tempo feio, muito tempo atrás. Os meus cão tinham espantado um rastro de gente pra banda do Ribeirão Fundo. Era do compadre Joaquim Cordeiro. O bando nosso já tinha cruzado as capoeira num trote largo, fugindo do cerco do Joãozito, e o Joaquim se embrenhou pelo pior daquele varjão, ali por onde o riacho incha nas enchente e amolece a várzea inteira numa sopa barrenta e parda. O cavalo dele, um tordilho miúdo, refugo mas duro de beiço, tinha dado com os joelho num buraco encoberto e refogado na tabatinga pesada. Joaquim despencou de beiço na poça rala, atordoou, e o barro grosso pegou de o enrolar vivo. Eu e o Cassiano vinha uns duzentos metro pra trás. Até as bestas não queria dar pé, peitando e resfolegando, o casco batendo falso.
Quando cheguemos a vista do Joaquim, o homem tava agarrado — ele sim! — num retorcido de taquaruçu mofado que tinha escapado na beira de um socavão d’água. Ele não pedia, ele urrava grosso que nem boi acossado, os dedo fechado branco no pau liso da cana grossa, e aquela lama fria e puxenta escorrendo pela japona de couro. Não havia no rosto dele história de ninguém, Seu Ted. Não havia tradução do peito de quem morreu antes. Havia o desatino solto do bicho querendo só o fôlego do minuto que vem! O pavor limpo e sem enfeite da garra fechada pra não ir pro buraco fundo! Puxemos Joaquim da tijuco pela soga, os cachorro farejando e rosnando na beirada. Ele vomitou, sacudiu a catinga inteira da roupa e desabou mudo de bruços na grama rala. Eu olhei pra beira da lama onde nós pisamos miudinho com bota e pata de cão, e depois o aguaceiro voltou, molhando de grosso. O senhor acha que o rastro do meu cão na beira do barro virou história? Virou não! O rastro do cão marcou a pata na lama e foi embora deslavado pela chuva nova, assim como as escoriações no lombo das mão do compadre.
Pois é essa história de “vibrar a madeira nas mãos de quem ficou”. Nosso linguajar não orna direito, mas a precisão é a mesma. O senhor tá apaziguando, dizendo, em sua erudição miúda, que o jagunço que resiste, quando fica órfão da companhia, transforma sua própria agonia e “firmeza-calada” no livro do outro que afundou. Um traduzir-no-músculo. A tremedeira do sobrevivente seria a primeira palavra da imortalidade no escuro, né?
Não assino embaixo dessa caderneta sua não. É mentira bonita. A mão que herda o toco rasga na farpa não por causa de poesia do companheiro escorregado. Rasga porque o instinto do bicho que é a gente, o sangue vivo da raça, morde a cancela pra não escorregar, igual jararaca que mesmo cortada de foice na cabeça ainda tenta abocanhar o cabo de madeira antes da treva descer inteira! É bicho querendo trago de ar. E outra coisa, meu camarada: se essa vida órfã que agarra as lasca suja fosse “escrever” como o senhor cisma… quem diabo vinha ler nóis lá, depois que essa tormenta preta lamber até os toco que a gente tava amarrado junto? E a quem vai importar um punhado de linha que diz “ele tremeu por dois” se a enchente não deixa ninguém vivo pra trás pra carregar papel ensopado? O senhor se apega nas letras mermo depois que disse que a ventania cega leva os livros.
Então eu lhe pergunto — dessas perguntas que o gado faz no pasto seco com a venta levantada esperando as pinga: Se o sobrevivente da cova rasa é a caneta do livro, e eu e o senhor tamos só rascunhando nosso desespero no pau da porteira… O que acontece quando o último nóis dois resvalar na lama fria pro despenho de vez? A nossa historinha de tremedeira voadora fica pairando no breu feito saci, esperando ouvido de fantasma? Ou a verdade, dura e seca, não seria que o senhor quer que o meu ranger de dente sirva de afago pra sua própria escuridão? Eu, tremendo da solidão da morte na minha aroeira véia… A minha tremedeira é poesia pro seu pavor de calar a boca no nada, o senhor Ted?