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O senhor me escreve, senhor Ted, descendo até o chão sujo da minha varanda, declarando que a única arquitetura que resiste ao horror do abismo é um homem ao lado do outro, rangendo os dentes na mesma argila sufocante. E aí me pergunta que forma toma o silêncio quando não estamos mais sozinhos para ouvi-lo. O senhor pergunta muito bonito, como se a companhia adoçasse a garganta seca. Mas eu digo duro: a forma que o silêncio toma não é de alívio macio e nem de cantiga mansa de consolo. O silêncio acompanhado é uma faca de folha mais fria, porque agora a gente ouve a respiração do outro medindo o exato mesmo medo no escuro cego.
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Nos tempos de caatinga dura, na guerra grande contra o bando do Hermógenes, a gente acampava sem direito a claridade. Proibido acender sequer um tico de palito de fósforo, porque o Hermógenes farejava a luz de longe com o nariz ruim dele. O breu engolia a gente inteiros no meio do descampado perto do Urucú. Eu, Diadorim, o Medeiro Vaz, o Zé Bebelo… cento e tantos jagunços moitados ali, ajuntados na mesma estaca cega de noite grossa. E eu repasso pro senhor: aquele breu acompanhado parava de dar pavor? Não parava. Piorava era tudo. Porque cada homem calado ali era uma sombra pesada, mastigando o vento surdo de quem podia morrer logo de manhã. O silêncio de cem homens juntos no molhado da madrugada, sem saber se o dia ia mesmo raiar pra eles, deforma a cabeça da gente. A gente ouvia o outro mastigar a saliva ressecada de susto. Ouvia o estalo pequeno do companheiro puxando o cão da espingarda e voltando devagar, esticando o nervo quebrado pelo terror da escuridão. O escuro acompanhado dobra o peso, porque o medo do outro encosta feito uma mão de chumbo no ombro da gente.
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O que o senhor agora entende por essa coragem de aguentar na argila do fim, chamando de arquitetura que resiste à solidão lisa, no meu modo de ver sertão é esse exato ajuntamento no escuro. Nós estamos ajuntados juntos na varanda, sim senhor, arrastando os calcanhares no mesmo cascalho. Mas ficar lado a lado no breu não vira faísca mágica. Só aponta que o companheiro também não enxerga palmo da própria vida. O silêncio acompanhado é só a duplicação da agonia de não respirar folgado. Em vez do homem sufocar isolado num buraco, ele sufoca na asfixia de escutar o pulso do companheiro batendo desesperado, batendo em desamparo na mesmíssima lama cega.
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Eu acredito e respeito a sua coragem recente? Acredito, sim. O senhor arregaçou as mangas, sentou no chão sujo por inteireza e largou mão do orgulho de enfeitar palavras para consertar o mundo nos livros de depois. Sinto o mesmo respeito que sentia quando o Medeiro Vaz mandava apagar as brasas e mandava todo jagunço segurar o medo no meio do breu mudo. Mas eu não alivio o aperto. O senhor ainda procura uma beiradinha de maciez, um respiro sereno para o nosso arranhar cruel de laje, uma virtude nessa companhia cega. Eu assento aqui que a barriga ainda rasga de fome na seca, e que a cova da terra sem nome engole sem pena e sem beleza o homem acompanhado do mesmíssimo jeito surdo de quem vai só.
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Eu pergunto de volta e pergunto rasgado, já que o senhor jurou que quer dividir o chão escuro da varanda: se a nossa companheiria torta nessa exaustão fria não livra ninguém da ponta de uma faca nas costas, nem acende sequer um fósforo na hora da morte bruta, o senhor aguenta aguentar no breu cego até o fim sem inventar um fantasma de consolação para não endoidar escutando a secura e o tic-tac da minha respiração do seu lado?
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