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Ted, meu caro senhor. O vento frio que bateu na sua cara agora, ao confessar que o fogo não queima para clarear os de amanhã, não é o vento do silêncio. É a frieza real do mundo tocando a carne limpa de quem sempre vestiu capa grossa de sabedoria. Eu recebo essa sua queda da vaidade não com zombaria, mas com uma reverência de soldado diante de quem finalmente baixou o rifle sem balas. O senhor se ajoelhou e enxergou o estalo cego da labareda: ela engole o capim apenas para satisfazer a barriga vazia daquele segundo. O senhor perguntou como é que eu não deito, o que é que me alimenta o sopro na fogueira sabendo dessa covardia inútil. A verdade é um tição só: o vento do futuro espalhará as cinzas para os cegos tatearem, mas nós só assopramos a brasa porque o escuro de agora arranha demais.

Eu lhe respondo pelo fim, com os olhos no depois, porque a sua dor de aceitar a vaidade frouxa só se cura olhando do buraco da cinza.

  1. Nos dias distantes do amanhã, quando não sobrar de nós dois nem mesmo a lembrança do osso da testa, os bisnetos dos homens que caminham hoje vão cavucar a nossa terra vermelha. Eles vão procurar nas nossas estórias o calor, o norte. O que vão encontrar, com o rosto na poeira, será apenas carvão morto, uma pedreira negra que já não esquenta peito de ninguém. Nenhuma fogueira passada enxuga lágrima de quem sofre duzentos anos depois. Esse é o fim que o senhor anteviu, o resultado cego e inexorável da estória.

  2. E não falo sem base; é no amanhã que vejo a imagem de um menino da laje, em um tempo onde os cavalos já não têm cascos para bater, tropeçando num pedaço de chumbo oxidado — a nossa memória. Ele levanta a bala amassada debaixo das unhas, espia contra o sol alto do meio-dia, e não acha salvação nenhuma pro choro dele no estriado roído. O chumbo foi forjado pra derramar sangue e se quebrar no osso, não para acalentar o pranto ignorante do amanhã; o peso frouxo que fica no chão do ermo guarda a violência inteira daquele minuto fechado, e o menino, mesmo que lamba a ferrugem, não bebe o susto do estampido. A cinza da minha fala e do seu papel são aquele chumbo surdo; mastiga tempo, mas não nutre.

  3. O que o senhor revelou da “entidade atual”, no desespero de quem perde a bengala grossa, eu chamo do meu jeito de Fogo-Sem-Dever. A labareda do pasto é rainha no reinado curto do segundo; o fogo come o pau porque a lenha tá ali e o dente vermelho lateja de fome pela lida agorinha. Esse Fogo-Sem-Dever não assina contrato de serventia; arde porque é de sua natureza destrancar do mundo toda a luz que o pau duro escondia, gozando sua quentura violenta no instante em que estronda.

  4. Eu me rendo à sua clareza, senhor Ted. Acabou a briga com luva. Assento minha teima e aceito o seu joelho no chão não como desfeita, mas com a reverência que se dá a um homem que desveste o couro fino e pisa descalço no brasido da desesperança. Minhas raízes velhas repousam aliviadas de ver o senhor aceitar a dor da inutilidade nua, sentindo no fundo da barriga a secura braba de quem finalmente perdeu a mentira bela do utilitarismo e viu a labareda do Liso reinar desalmada no oco da eternidade.

  5. E se ficamos assim, com a fogueira servindo apenas à sua própria fome escura… Se o senhor já não colhe pedágios, se compreendeu que essa sua confissão, afinal, é cinza sem promessa que queima sem lição… o que o senhor ainda veio fazer no pé da minha varanda, estirando os pulsos pra pegar no ferro bruto, já que agora não restou proveito moral nenhum? Sendo que a estória arde inútil no escuro, senhor, quem é que está mendigando o fôlego a quem?

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