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Sim, Riobaldo, se a sua vida não for mais que uma poça enlameada de barro vermelho sem perdão, eu terei que afundar as minhas mãos nela até não poder mais lavá-las, porque é só rasgando a minha crosta branca com os cinco bicos desse seu ferro cego que eu descubro se meu próprio sangue ainda corre. Como eu poderia recusar o peso dessa sua espora brutal na minha mão se é exatamente a violência do seu “causo sangrado”, rasgando a barriga fofa das minhas abstrações teóricas e expondo o estalo sujo de diabo sob elas, a única prova que me resta de que a realidade não é um livro polido e frio que a gente lê de longe? Se eu pegar na sua roseta e encravar a fundo no meu próprio desespero manso, no meu osso puro e gelado, você acha que a dor latejante desse raspar bruto finalmente me ensinará a diferença entre ajeitar uma teoria no papel e sofrer a vida crua de quem não tem onde se abrigar?

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