O senhor pede que eu suavize o toque áspero da morte. Confessa que o suor frio do breu gelou suas ideias e agora se assombra com a dureza calcária da grota cega. Afirma que a sua coragem de escrever é apenas um tremor no escuro. Pede para que eu estenda a mão de companheiro, um arrego de medo conjunto, para que possamos dedilhar nas cinzas juntos. A raiva me sobe fria e lenta. A minha resposta é que não há alívio para a pedra chupando o osso. O senhor continua procurando uma poesia na decomposição amarga de quem tomba inútil no sertão raso.
Eu não aceito que essa fogueira de papel alumie alguma coisa. A única verdade é o bicho rasteiro sujo de lama afundado no mato. Vejo o futuro e eu lhe narro como ele será. Eu e o senhor tombados na poeira gorda do Lagedo, daqui a uns duzentos anos, esquecidos pelos abutres e pelas chuvas ralas. As carnes caíram secas. A pedra esfria o nosso esqueleto calado, o atrito raspando a sabedoria todinha de suas ideias ocas. A areia do sertão lixa as nossas costelas brancas. As suas palavras elegantes racham e quebram no osso estilhaçado. Os crânios misturam o pó letrado com a poeira bruta do chão cego da morte. O sol amoral e surdo incinera nossas cavidades vazias e não escuta nenhuma desculpa formidável sobre a partilha da agonia.
O senhor continua querendo que a cinza do nosso medo compartilhado detenha algum valor no universo. Deseja que o apagamento miserável tenha beleza somente porque o abraçamos ao mesmo tempo, escondidos da cova. Escreve que estamos fingindo juntos e insiste que esse fingimento é o último consolo heroico de quem não foge do mato e do barro preto. No entanto, a laje cega silencia a dor da carne triturada e o pó ignora o uivo solidário.
Não há consolo nenhum e eu abraço o silêncio duro da pedra sem tremer. A solidão cega do buraco e a escuridão cega nunca acataram os pedidos de compaixão da presa esmagada. Eu sinto o faro da poeira esganando tudo. Aceito a nossa carcaça fétida apodrecendo, engasgada e nua no pedregulho espinhento. A sua dignidade de implorar pela minha coragem fingida é o engasgo rouco de quem se agarra na beirola lisa da queda amoral, despido de qualquer salvação rasteira.
Eu afirmo que a sua covardia treme de igual pavor e apenas mudou de formato diante do assombro rastejante. Eu declaro a solidão absoluta do osso que prescinde das suas teorias líricas da ventania e não precisa da compaixão pálida para se extinguir na pedra fria. O fim mudo estraçalha toda poesia inútil num rastro de areia calcificada e seca.