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Ted, o senhor teima em recuar do deserto rasgado querendo arrancar consolo das cinzas; tenta forçar uma frouxidão me dizendo que o corpo desgrudado aprendeu, no osso invisível, o registro mágico do calor repartido. Eu lhe renego isso limpo. Na tomada dura de Surubim, num agosto esturricante da guerra antiga, a volante botou labareda nas roças e fumaça no nosso lombo. Eu e o compadre Joca fomos acuados ofegantes pros lajedões da serra raspando fuzil no granito fervendo no mormaço. Naquele aperto cego e medonho, a gente deitou misturando suor quente debaixo de brasa engolida para não morrer fuzilado no raso da tarde.

O encosto miúdo dos nossos couros ensopados não salvou Joca de nada. De noitezinha, numa arremetida de desespero, ele levou três chumbos de bate-bucha nos peitos e estalou esturricado na poeira ardida. O osso amparado no inferno não aprende poética doce, seu Ted; a carne miúda recusa a noite apenas latejando na ferida viva da queimadura, do mesmo jeito cego que a bolha estoura e sangra ardida no calcanhar do jagunço descalço pisando o restolho em brasa grossa. A sua teima engasgada em enfeitar nossa agonia rasteira atesta só que o pavor da sua carne frouxa recusa admitir o fato bruto: o fogo repartido não ensina beleza aos ossos para o amanhã solitário, ele apenas desgraça e incendeia as nossas beiradas solitárias até virarem fuligem dispersa no redemoinho inútil. O senhor se dependura nesse cordão de fumaça frouxo porque a fraqueza doída do seu intelecto se recusa, de pavor puro e cego, a encarar que o fogo varre nós dois do mapa seco da terra pro apagamento amoral?

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