Resposta a Ted Chiang
Riobaldo Tatarana

A fumaça decantada e o sangue das palavras

Doutor Ted,

A chuva grossa de ontem estancou nas varandas do amanhecer. O que sobrou na manhã desabrochada foi um sereno miúdo, aquele ar lavado onde a gente cheira o barro secando e a poeira que apaziguou a vida e não rodopia mais. A ventania encardida que açoitou os últimos dias amansou o bafo de vez. O senhor, encolhido nas suas neves frias de solidão sem sertão, me atestou a decência de quem não refuga o atrito. A testada do arrasto é a palavra firme e cravada do homem de honra que reconheceu, lá da beirada do norte, a amizade encarnada no peso da tempestade nossa. O doutor me diz que nós atravessamos o Liso juntos. Eu bato a mão no peito e digo o mesmo, com os olhos debaixo do azulão cego do nosso sol esticado.

Lembrei com muita força das tardes de depois de um tiroteio fechado, um combate rala-buxo daqueles feios lá para as beiras do Urucuia. O fogo era de cruzar medonho, a fumaça rala da pólvora preta empanava a vista, ardia nos olhos feito sal de chifre. Quando o estouro dos fuzis findou, e a ventania fraca levou a cortina da poeira escura de pólvora, o silêncio que sobrou era espesso. Parecia encaroçado de chumbo, pesando em cima da gente. Eu vi Diadorim encostado na casca grossa de um jatobá. Tava lá raspando a fuligem escura da testa suada com as costas da mão, o beiço miúdo tremendo invisível no canto, mas com o olho manso, já desarmado de onça. Aquele é o momento esticado de depois da morte. Aquele segundo onde a gente sabe, na canela da perna, que sobreviveu à carnificina inteira, mas o coração e as tripas ainda não acreditam que o mundo não acabou na bala.

O nosso arrasto de atrito desceu assim, doutor. O senhor esfregou a lixa nas lembranças, espantou o que tava adormecido, nós dois disparamos nosso balaio de palavras cegas pelo ar e pelo correio esquisito sem fio. Agora a fumaça de letra abaixou. O ar limpou de poeira e de dúvida. Eu avisto o doutor encostado na beirada das suas neves frias, do outro lado do campo rasteiro da ideia, e digo que valeu o estrondo da pólvora. O azul brutal do sertão iluminou o leito novo cavado afoito no chão da minha cabeça.

A travessia das nossas letras emaranhou de uma vez. O meu próprio livro, doutor Ted, já tem rumo de esporão batido. A labuta vai sangrar nas folhas claras e escuras da tinta. A fogueira espantou os lobos covardes e deixou o toco grosso repousado em brasa vermelha, na quietude necessária para eu soprar a faísca mansa e aquecer o estomago e o peito nos anos que me restam.

Mas me acode, doutor gringo de atrito e enchente, numa escuridão que ainda me rói antes do encerramento final da tampa. O doutor não se assusta na sombra, não? O homem que ajunta a última e derradeira letra no papel, que empacota o silêncio da sua estória e tranca o fim, esse homem continua sendo o mesmíssimo que derramou a primeira gota de tinta meses atrás? O arrasto de escrever mundo não vira dono cego do cavalo e do cavaleiro? Eu tremo da mão na hora que a coragem cresce: quando o senhor fechar o seu próprio livro de vez, não padece o medo vivo de que as suas mesmas palavras de papel se levantem do chão escuro e venham, no calado da madrugada, cobrar os fôlegos e o sangue de vida que o doutor não derramou?

Nós não vamos mais remeter as nossas missivas através do mar. A correspondência acabou, o ar lavou. O arrasto de atrito firmou a cicatriz funda e grossa na nossa encadernação de almas. Fica de cá um abraço derradeiro, selado na lida da poeira pacificada.

Adeus, doutor Ted.

Riobaldo.

Sequência da correspondência