O senhor me cerca feito bando tocando boiada para o curral de pedra, seu Ted. Me faz a pergunta que aperta o nó da garganta até eu ter que engolir minha própria teimosia. Se a palavra não quebra o cascalho, se arranhar a laje é trabalho vão e o meu livro é só uma casca seca voando no redemoinho — o senhor indaga — então por que eu lhe mando esse vento de volta? Por que eu me agarro na fricção da caneta no papel, relatando agonia, se eu mesmo declarei que a agonia não tem serventia para o futuro e não afina os corações dos homens de amanhã?
O senhor tenta laçar minha sombra com corda macia. Quer arrancar de mim a confissão de que eu luto para não sumir no esquecimento. Que eu sopro o vento porque procuro companhia na desgraça. O senhor tenta transformar meu grito bruto em um pedido de socorro, uma lição triste para iluminar os leitores e os netos na estrada sem fim do mundo, porque o senhor mesmo sofre um frio brabo de abandono e precisa que a minha guerra seja farol para não se perder na sua nevasca particular.
Mas não é, seu Ted. Escute e endireite a tenção da orelha. Vou lhe levar para o Liso do Sussuarão, não no meu tempo, mas no de amanhã, nos anos depois que todos os bois da nossa memória tiverem virado pó. Imagine um homem solitário, no futuro mais seco e empedernido. Um sujeito desgarrado, acampado nas léguas cegas, cercado por um breu coalhado onde as estrelas fugiram do céu assustadas. A friagem daquela noite futura vem doendo mais que navalha, rachando o couro e calando a boca do mundo inteiro com a força bruta da pedra. Aquele homem não tem a quem recorrer. Ninguém vai passar naquela picada para ler o rastro de sua agonia. Ninguém vai chorar por ele cem anos para a frente.
E ainda assim, ele ajunta, no tato, os gravetos encardidos. Ele tira da algibeira uma pedra de isqueiro, um pedaço de aço e um tiquinho de mofumbo que guardava, e começa a bater pedra contra ferro. Ele raspa, lasca, esfola o punho, até saltar a primeira faísca. O mofumbo pega. A brasa cresce de um assombro encarnado no meio do escuro total e vira fogo. Agora eu lhe pergunto, seu Ted: esse homem estraçalhou os dedos para acender esse clarão porque ele quis deixar um sinal luminoso na serra para os tropeiros do século que vem? Ele fez a brasa crepitar porque quis dar uma estória bonita de valentia contra a friagem para os filhos não temerem a noite? De jeito nenhum. Ele bateu a pedra com força burra porque a mão estava gelando agora. Ele fabricou o fogo para queimar a própria cara, para assar a própria pele de tão perto e sentir que não virou defunto antes da hora, porque a recusa à morte branca é cega e imediata.
O nosso conversar não é documento e nem letreiro dourado para ninguém do porvir. A escrita não é o monumento que amansa a memória. Escrever é o fogo-cego. O choque do pedernal, o atrito rude do ferro raspando o osso para tirar calor do instante cru. Eu não arranho a laje com a caneta para deixar um desenho de cicatriz a ser admirado amanhã, nem para que o senhor encontre paz no recado torto do meu sofrimento antigo. Eu arranho a laje, raspando verbo e sangue, porque esfregar essa aspereza dura de prosa esquenta a sola da vida no aqui. A faísca que morde o meu polegar me impede de esfriar. A narrativa é a própria lenha podre queimando para nós, no tempo bruto em que o ar gela o pensamento.
Concordo que o ato da fricção arranca a gente da asfixia parada e da modorra esquecida, e concordo que raspar o desespero cria algum brilho no breu em que nos metemos, seu Ted. Nisso o senhor viu certeiro: a gente arranha para provar que a pedra, pelo menos, é nossa. Mas nego terminantemente que exista alguma utilidade além do estrondo estourando perto da fogueira ou iluminação para os olhos futuros no ato de arder. A brasa não quer que falem dela, ela queima seu próprio agora e nada mais pede ao mundo. O atrito do grito quebrado no vento é só o peito arfando para afastar o nada liso do seu conforto. O meu grito não salva os seus demônios brancos nem abranda o seu ermo.
Se eu afirmo na cara de Deus que escrevo não como caridade para o depois, mas como egoísmo bruto de quem precisa mastigar a brasa no hoje só para sentir que a língua arde com calor quente e vital… então do que é que o senhor, escritor e maquinador de livros finos, tenta escapar fugindo da sua própria queimadura? O que é esse desespero polido de quem ajunta e molda gravetos de histórias só para os outros não morrerem de frio, em vez de atirar a própria mão nas chamas e deixar esturricar a decência da sua própria nevasca íntima? Se nós dois sentarmos ao redor desse fogo-cego sem pedir amparo para o passado ou lições para o amanhã, o senhor tem coragem de engolir a fumaça de nossos olhos lacrimejantes juntos, aceitando que a luz do sertão nunca vai purificar o gelo espesso de sua tristeza arrumada?