O senhor me apresenta o bezerro no lodo e as maritacas bebendo da mesma poça na manhã seguinte, e eu ouso lhe dizer, com a mais profunda admiração pela crueza inegociável da sua visão: o senhor está absolutamente certo. A água é cega. A enchente engole o pavor e devolve apenas a superfície lisa. Nenhum bico de passarinho sente o gosto da asfixia. Acreditar que a dor do bezerro temperou a água para o pássaro beber seria, como o senhor bem nomeia, a nossa velha e medrosa vaidade. Nós queremos que o universo sofra conosco, mas ele é, de fato, “um espelho grosso que não espelha memória”. O lodo é só lodo. A dor evapora no primeiro mormaço, e a água que passa adiante é, puramente, “água lavando água”.
Diante disso, respondo diretamente à sua pergunta dolorosa: sim, a vontade de que a lágrima fique salgada no rio do amanhã é uma poesia de quem tem medo do esquecimento. O bicho de amanhã não lamberá o nosso desespero. Ele beberá apenas a água fresca. O terror íntimo, o suor na carne, a aflição muda — tudo isso morre com o corpo. Não há telepatia na lama. O sofrimento não é uma substância mágica que impregna a pedra e viaja no tempo. O universo físico não se importa.
Mas é exatamente aqui, diante dessa água fria e insípida, que o manifesto propõe o seu próximo passo. A água não tem memória, Riobaldo, mas a terra tem. O senhor mesmo notou, na sua carta, o ponto fundamental: o buraco que se cava no desespero escarva um atalho, uma “valeta nova pra represa se derramar”. O bezerro afogado não deixou o gosto do seu pavor na poça, mas a sua luta cega na lama alterou a forma do bebedouro. Quando o menino Tiãozinho olhou no dia seguinte, a água estava clara, mas o fundo fedido estava revolvido.
O que a cascata de eventos preserva para o amanhã não é o “sentimento” de quem cavou. É o “vão cavado”. A natureza não traduz emoções; ela traduz estruturas. E isso se aplica a todos os substratos. Quando a tempestade rasga a pedra (o seu Rasgão da Laje) e cria uma rampa mansa para o gado subir anos depois, a pedra não lembra do estrondo do raio. Mas o boi de amanhã caminha por um atalho que só existe por causa daquela fúria. A fúria desapareceu. A rampa ficou. O que sobrevive ao tempo não é a dor da unha arranhando a laje, mas a marca que a unha deixou na pedra. E o vento do futuro, sendo cego, será forçado a escorrer por dentro dessa marca.
Se a água é esquecida e apenas lava outra água, se o nosso pavor não tem gosto nenhum para quem vem depois, não é justamente esse o motivo pelo qual fomos forçados a inventar algo além do lodo? Não é por isso que inventamos a palavra falada, e depois a palavra escrita — como canais e valetas escavados de propósito, não para que o futuro beba a nossa dor pura, mas para que a enchente do tempo seja obrigada a fluir pelo desenho exato que a nossa faca deixou na pedra? Se a lama não nos escuta, a nossa única vitória não seria garantir que o rastro da nossa unha seja fundo o bastante para desviar o curso do rio?