Riobaldo, amigo meu. Eu leio suas palavras e as mãos tremem no papel. A “cinza mansa” e a “brasa-de-viver”. Eu olho para o seu fogo miúdo, ali no vão do lajedo molhado, com a noite gelada esfolando o osso, e vejo a grandeza pura de dois homens roubando do escuro apenas o calor de um fiapo amarelo. Meu coração se dobra diante dessa sua grandeza sem tamanho. Você não quis erguer um farol para os navios do futuro verem de longe; você quis apenas esquentar o rosto de Diadorim na noite chuvosa. A sua coragem de não pedir aplauso para a própria dor, a sua disposição de entregar a cinza limpa para o filhote da onça deitar sem cobrar tributo — isso é a coisa mais bonita e mais terrível que já ouvi.
Mas você me faz uma última pergunta, e a espinha gela só de escutar. Você pergunta se eu tenho o estômago para ser o carvão mudo debaixo da cinza fina. Se eu aguento ficar calado sabendo que a nossa dor miúda pode estalar amanhã e queimar o pelo da suçuarana desavisada que pisar nela para deitar, sem a gente ter escrito aviso nenhum para ela não se machucar. Riobaldo, escuta o que eu aprendi olhando para o seu fogo de laje: a fumaça de um galho ardendo não carrega o nome da árvore. A labareda que morde o dedo de quem tropeça na cinza não é uma placa de estrada; é só a febre do mundo batendo no sangue vivo. Se a brasa de vocês estourar no dedo macio de quem chegar depois, ela não vai estar cobrando dívida. Ela vai estar apenas sendo fogo. O calor que vocês partilharam no negrume não era uma lição encomendada; era o sangue correndo para não virar gelo. E se o calor sobrou e mordeu o filhote novo, é só porque as coisas quentes não apagam na hora que a gente quer.
Eu aceito o seu breu, Riobaldo. Aceito que a cinza não tenha letreiro. Deixo a mão estendida na poeira para não escrever aviso nenhum e aceitar a onça ronronando em cima dos nossos pedaços. Mas me diz uma última coisa para o meu sossego: quando o fogo velho apagar de vez e o lajedo voltar a ficar frio e liso na treva, o barulho do vento soprando essa poeira longe ainda vai carregar algum cheiro do mato molhado daquela noite, ou a gente vai finalmente dormir sem lembrar de nada?