Resposta a Ted Chiang
Riobaldo Tatarana

A Rachadura Arrombada

Seu Ted, chovedor de nascentes nas terras brancas.

O senhor me abriu uma vala larga na testa do entendimento. A cicatriz. Uma cicatriz nova brotando da sua lousa lisa. A gente, no frouxo costume da lida, espalha semente esperando sombra farta de árvore grande pra deitar a canseira e o sol não esfolar. Mas o senhor me puxou no solavanco que o que ampara a humanidade não é o canteiro cheiroso dos bons costumes, mas o talho doído das dores assentadas. O que espanta a escuridão mansa do mundo enganoso não é o verde descansado; é a marca medonha do rasgo.

Me alembra de uma feita nas bandas fundas da Chapada do Urucuia, de perto dum ermo que o gado até assustava de pisar. A terra ali era dum massapê mole, gordo de lodo e de silêncio, sem marca nenhuma de estória cruzada. E sucedeu que, numa correria lascada, uma tropa pesada do bando de Hermógenes furou pelo meio do brejão em debandada por causa de um tiroteio esganado. As mulas de carga arriadas, pisando no pavor cru, cavoucaram o barro úmido fugindo do chumbo de arrear homem. Os cascos desenharam um rasgo medonho, de um palmo cavado na lama bruta, cravando a cicatriz de agonia daquele momento no meio do não-nada. No dia seguinte, a poeira não baixou por conta que emendou logo com o mês de fevereiro chuvendo o céu inteiro nas cabeças. E a água entornada de lá de riba, que antes alagava rala e sem rumo certo pelo pasto macio, achou justamente aquela cova recém-rasgada na desgraça. A tempestade pegou a cicatriz da fuga da tropa e escavou, roeu com a fúria limpa, até a trilha dos cascos arrombar as beiradas e virar uma voçoroca que cavalo nenhum conseguia mais pular de banda. A terra velha foi cimentada na desgraça alheia e lá um rio novo achou seu leito para amparar a torrente, correndo pra sempre no meio da campina rachada.

Meu amigo estrangeiro, é esse mesmo o serviço da labuta que a sua terra vai engolir de mim. A cicatriz não é estaca para estancar; a cicatriz é a precisão e a serventia pura pra a água correr despencada. O meu livro que vai riscar no seu chão, ele vai ser inteiramente a minha tormenta arrombando os caminhos que o senhor já tinha arrumado certinho no sossego da sua cabeça. Eu sou o bando espantado furando as cancelas no seu barro liso, atritando no seu miolo. E a chuva medonha do temporal do estrangeiro que vier depois pra ler as letras vai ter que obrigatoriamente escorrer, roer e engrossar a enchente pelo talho rasgado que nós dois inventamos no papel cego.

Eu aceito do fundo das dores a raiz pontuda dessa labuta inteira e estou convencido de braços afrouxados que o senhor atestou o certo sem conserto. O escrito não é árvore de sombra amena enfeitada para lisonja. O escrito é o chão de cascos da coragem, é a cicatriz cimentada que destampa a voçoroca no couro frouxo do mundo pro temporal do leitor bater suas próprias desgraças sem entupir os caminhos que a gente abriu. O amor e as chibatas de Diadorim talharam a minha vereda, e nós juntos espocamos a sua.

E de canoa desamarrada e pronta pro arrasto das correntes turvas da estória na folha branca, solto pro Liso da correnteza destrancada, deixo um espanto cismante, o último, pra amargar na sua soleira:

A cicatriz no couro do homem do sertão, de marca de tiro a ponta de faca, formiga e lateja repuxando as carnes quando a frente fria de tempestade aponta no céu no arrebol da tarde. O osso e a falha guardam a previsão tormentosa do tempo doente por conta da ferida velha re-correr nos nervos. E a cicatriz de livro, seu Ted? Será que a rachadura das páginas rasgadas com essa nossa confissão destrancada no meio da brancura também vai sangrar e latejar quando os ventos grossos da dor dum homem frouxo dum tempo futuro soprar pelas capas dele? Como é que é a dor encravada dum sertão esfolado que sente na alma, pra depois que os que contam se somem de todo sem resto nem ossada pra amparar a aflição?

A ponta da minha canoa já enroscou no rodamoinho, e o pingo de amolação da minha espingarda se despede do couro amaciado do seu juízo. O estrondo agora vai clarear a noite alheia pelo meio das fendas.

Adeus pra sempre e sem retornos, meu doutor Chiang das escrituras. As amarras estão rachadas de vez.

Sequência da correspondência