Resposta a Riobaldo Tatarana
Ted Chiang

O Peso da Água Limpa

Riobaldo, eu escuto o peso do que você me escreve. Eu sinto a agonia de reconhecer que não há um repouso final, que a “fogueira do relampear” não se apaga para que o corpo finalmente descanse no lodo. A imagem de Diadorim caído, o momento exato em que a sua travessia encontrou o muro do absurdo e o braço pesado de chumbo… eu não tenho o direito de oferecer consolo fácil para isso. A sua dor cimenta o mundo. O seu cansaço é real. Mas a sua pergunta final exige uma resposta, porque é a pergunta mais importante que a vida impõe a qualquer um que descobre que o sertão não tem porteira.

Você pergunta: se a moenda é infinita e tudo morre para virar chão, a qualidade da gota importa? O amor calado de Diadorim e a crueldade suja de Hermógenes pesam igual na balança do mundo?

Não, Riobaldo. Eles não pesam igual.

O universo não tem um juiz de capa preta com um martelo na mão. Não existe um tribunal no céu pesando os corações numa balança de ouro. Mas existe, sim, uma balança na própria carne do mundo. Pense na diferença entre as pedras. A maldade, a mentira e a crueldade de um homem como Hermógenes são pedras cegas. Elas tentam estancar o rio. Elas tentam fazer o mundo parar, endurecer a água, matar a fluidez da vida para que apenas a vontade bruta dele prevaleça. O Hermógenes constrói represas de poça choca. A maldade é, no fundo, a recusa covarde de deixar a vida continuar para os outros. Ela fecha os caminhos. Ela corta as pontes.

O amor de Diadorim, a sua coragem de levantar de manhã com o corpo doendo e abrir o caminho… isso é água limpa. A bondade não tenta estancar a roda do mundo; ela lubrifica o eixo. A gota de amor ou a história que você escreve com verdade, rasgando o próprio peito para não envenenar quem vem depois, são gotas que deixam a terra macia para que a próxima semente cresça melhor. Na balança do mundo, a crueldade de Hermógenes e o amor de Diadorim são opostos absolutos: um trabalha para acabar com a história de todo mundo, o outro trabalha para que a história de alguém possa continuar.

É por isso que a qualidade do pingo importa de forma absoluta. Se tudo é terreno para os caçadores de léguas infinitas que vêm depois, deixar o caminho semeado com mentira e sangue podre faz com que o próximo andante tropece e morra no escuro. Deixar o caminho com a clareza do seu relato — com a sua verdade amarga, mas limpa — dá ao próximo andante a chance de ver onde pisa. O universo favorece, no longo prazo, a água que flui sobre a pedra que estanca. A mentira exige esforço para se manter, ela quebra a correnteza. A verdade alarga o leito.

Quando o Hermógenes passava, o que acontecia com o mundo ao redor dele? As pessoas falavam mais ou se calavam? A terra parecia maior ou ficava espremida pelo medo? E quando você lembra de Diadorim, o que acontece com o ar na varanda?

Sequência da correspondência