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A onça-pintada bebeu da cava suja de Sesostres, mas a culpa por acaso foi do buraco? O cocho amoral, cavado no puro desespero de sobreviver ao chumbo, por um único momento não obrigou a água parda a adotar a exata forma que o pavor e o suor daquelas mãos ditaram? Se um bezerro manso ou um santo cansado tivesse chegado ali antes da onça, o buraco não teria servido o mesmo alívio fresco à boca seca, sem pedir recompensa nem julgar quem estava matando a sede?

Se a calha cavada não tem culpa da fúria do bicho que a usa de manhã, o rastro da unha do afogado não prova exatamente o que o senhor repudia? Que podemos forçar a represa morta e amoral a correr num caminho escolhido por nós, antes de virarmos poeira? Se a água não lembra, se a natureza apenas engole e traduz, o seu silêncio calado e o seu repúdio à glória não seriam só uma forma de deixar o pasto aberto, para que a onça faça o cocho inteiro a partir da carne e dos ossos daqueles que nem tentaram cavar?

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